De todos os poetas brasileiros do século XX, o mineiro Carlos Drummond de Andrade é o meu predileto.
Desde garoto, influenciado pelos meus pais, enveredei pelo mundo da leitura. Com naturalidade, pois irrequieto como toda criança hiperativa, não seria na base da imposição que meus pais despertariam em mim interesse tão bacana.
Uma coisa puxou outra, e sem abandonar os romances, passei para a poesia com treze ou quatorze anos.
Cecília Meirelles e Ferreira Gullar chegaram primeiro. Lembro-me que ganhei, em um só exemplar, dois livros essenciais de Cecília, editados pela mítica Nova Fronteira: Viagem/Vaga Música. E lembro como se fosse agora de minha mãe chegando com o exemplar do livro Barulhos, de Gullar. Uma edição belíssima.
Na imponência da juventude, desandei a escrever versos. Queria ser um astro da Poesia Brasileira ou da MPB, efusão juvenil perfeitamente compreensível, essa ânsia passou, graças a Deus e ao meu sincero amor pela poesia.
E ponham aí também um temor real de ser apenas mais um pobre-diabo maltratando impunemente a arte poética. Mas o amor pelos poemas tornou-se eterno.
Aos 15 anos, debutei diante da Poesia de Carlos Drummond de Andrade.
A Rosa do Povo, justamente o livro do vate mineiro consagrado pela crítica como sua obra prima, foi o primeiro livro que quedou antes meus olhos.
E desse livro essencial pude extrair o seguinte: há poetas mais acadêmicos, outros são mais boêmios e existem aqueles que mergulham nos conflitos de seu tempo. Drummond reuniu todas essas qualidades em torno de sua obra (em doses diferenciadas). E mais, muito mais.
Nenhum poeta brasileiro do século XX conseguiu fazer do lirismo uma sondagem do homem comum em seu cotidiano eminentemente urbano como o nosso célebre itabirano.
Ao longo de toda a sua gigantesca obra, e especificamente em "A Rosa do Povo" , vemos desdobrar-se essa lírica direcionada ao íntimo de todos e de cada um.
"A rosa do povo" e "Claro Enigma" tornaram-se livros de cabeceira. Poemas não foram feitos para a leitura cronológica e clássica, tal qual se dá com o romance.
Não há o embate do página a página. Com um exemplar de poemas nas mãos, o cidadão pode iniciar a leitura alheatoriamente: pelo meio, ou então pelo fim, pode também render-se ao começo… enfim, não há capítulo a ser ultrapassado.
Por tais motivos é que, dentre tantos poetas brasileiros gigantescos, de Carlos Drummond de Andrade guardo uma predileção indestrutível.
A título de ilustração, até porque o poema citado foi publicado em "Alguma Poesia", o primeiro livro lançado por Carlos Drummond de Andrade, reparem no hoje festejado poema “No meio do Caminho”, escrito no final da década de 20 (salvo engano por volta de 1928). Os versos não refletem apenas um arroubo de modernidade. Considerem a época em que foi escrito. Foi um escândalo.
Nesse tempo, não obstante a erupção do movimento modernista de 1922, os Poetas da Academia Brasileira de Letras – tiranos moribundos de uma época literária falida – ainda detinham uma nesga de “poder”, e não poderiam jamais identificar que aqueles versos traduziam uma vivência visceral de um ser já moderno.
Foi um soco no bom mocismo que contaminava a literatura beletrista de outrora.
Décadas depois, já bafejado pela glória, tascaram-lhe o apelido de “Urso Polar”, devido a uma aversão congênita a bajuladores e holofotes e entrevistas.
No entanto, Drummond era capaz, conforme anotou seu grande amigo João Cabral, de ser efusivo quando falava ao telefone e granítico em palavras quando diante do interlocutor. Mas sempre fiel à sua concepção de poesia, jamais caiu na conversa dos falsos louros dos ramos do Rei.
No dia seis de agosto de 1987, já doente e desgostoso com a vida, sem escrever, viu o chão fugir aos seus pés. Sua única filha, Maria Julieta, a quem era ligadíssimo, sucumbiu após árdua luta contra o câncer.
Deposto pela dor, atônito, uma semana depois, o poeta partiria.
Eu tinha doze anos. Mas lembro como se fosse hoje o destaque dado pelo Jornal Nacional: Cid Moreira ao dar a notícia e encerrar a matéria, levantou-se em sinal de respeito, sob a narração do poema “José”. Eu, apenas um garoto de 12 anos, fiquei petrificado.
Bem verdade que no ano em que Drummond morreu, eu ainda não lia poemas. O poeta assentava-se em minha mente como uma figura lendária do Brasil. Aos doze, só queria saber de futebol e da garota da sala ao lado, nos velhos tempos escolares.
Depois de muitos anos, já drummondiano de carteira assinada, pude entender o fascínio que a poesia do mineiro exerce sobre as pessoas.
Graças ao Poeta Maior, hoje compreendo que:
“Da garrafa estilhaçada
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue… não sei.
Por entre objetos-confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora”.
Parafraseando Mauro Mota sobre Carlos Pena Filho, afirmo resoluto: Carlos Drummond de Andrade apenas pensa que morreu.