Sebastian Dangerfield é um americano com residência em Dublin. Filho de uma rica família americana, casado e com uma filha, ele estuda direito e tem o sonho de se tornar um grande advogado. Resumir a história deste homem desta forma seria um grande erro, não apenas pela simplicidade do relato que retrata um homem comum, mas também porque Sebastian tem um estilo de vida transgressor que ao mesmo tempo gera indignação e é apaixonante.
O protagonista do livro Um Safado em Dublin, escrito por J. P. Donleavy e lançado pela Editora L&PM, é daqueles personagens que marcam pela confusão proporcionada ao leitor. No meu caso, o livro fora largado algumas vezes por pura indignação das ações de Dangerfield e logo depois era resgatado e devorado, simplesmente por que eu precisava saber seus passos e vivenciar por alguns dias sua condição de vida miserável e delirante.
O livro passa-se na cidade de Dublin, na Irlanda, no período pós-guerra e este fato poderia justificar as ações de Dangerfield como uma fuga daqueles terríveis anos. Mas o fato é que este período quase não é citado no livro, estando subentendido na narrativa, sendo desnecessário qualquer justificativa para as ações do personagem que dão a obra um tom atemporal.
Dentre as ações de Sebastian é fácil identificar alguns atos imorais, que geram indignação e ao mesmo tempo são aceitos pelo leitor após ouvir as justificativas desconjuntadas do protagonista. Bebedeiras contínuas, empréstimos esquecidos, itens pessoais e de terceiros penhorados, traições e roubos que eram justificados sempre das maneiras mas estranhas, mas que logo convenciam aqueles que se relacionavam com Sebastian, e por que não dizer ao próprio leitor.
Algumas explicações eram ligadas a família, religião e a Deus. Sempre que sua esposa Marion começava uma briga com Dangerfield, este logo pedia trégua, paz e que fossem amigos por uma manhã independente das suas ações. Um desses episódios acontece quando Marion questiona o marido da sua falta de banho, e este responde que estava cultivando a vida natural e o culto ao espírito algo absurdo, patético e ridicularmente irônico. Ao lidar com religião, este falava de modo respeitoso e subversivo, além de encarar Deus como um ser cheio de defeitos que o colocara naquela condição. Justificativas que por beirarem o absurdo geram um conflituoso divertimento durante a leitura.
O divertimento também é visível na descrição de algumas personagens. A esposa Marion tinha pelos em torno dos mamilos, a recatada senhora Frosty de curvas pouco acentuadas era um bom partido, a ingênua Mary tinha seios fartos e fogo incontrolável e o amigo celibatário, que era atraído e fugia de mulheres bonitas e tramitava pela homo e heterossexualidade enquanto não saía de sua condição.
A narrativa é outro ponto marcante e fundamental do encantamento do livro. A maioria dos parágrafos começam com uma narrativa em terceira pessoa e no meio, quase como um furto, o protagonista assume o relato dos fatos como se não estivesse gostando do narrador impessoal e deseja substituí-lo por sua própria visão ou então que o escritor é o próprio protagonista e que tramita entre dois mundos, o do narrador impessoal e do louco personagem. Tal desconcertante estilo, ignorando qualquer regra gramatical, dá o tom de uma história totalmente dialogada em um ritmo alucionante, delirante e quase alucinógeno.
Enfim, Um Safado em Dublin é um daqueles romances que te pegam de assalto. A narrativa totalmente composta por diálogos dá o tom alucinante que caracteriza Sebastian Dangerfield. Louco, delirante, canalha, amoral e apaixonante, o protagonista desperta o pior e o melhor da condição humana ao vivenciar um estilo de vida transgressivo e superando os problemas de um modo trágico e cômico, que gera no leitor um conflito de sentimentos e sensações que tornam o livro de J. P Donleavy simplesmente fascinante.
Em tempo, Johnny Depp é apaixonado pelo livro e comprou seus direitos autorais para o cinema. Então, em breve, poderemos ter o famoso ator no papel do fascinante transgressor de Dublin.
Um Safado em Dublin
Título Original: The Ginger Man
Autor: J. P. Donleavy
Tradução: Mário Mascherpe
336 páginas
Preço Sugerido: R$ 19,50