O autor de Acostumado a Morrer passou metade da vida nas colônias penais do noroeste da China — campos de trabalhos forçados onde os prisioneiros eram "reeducados". Muito do que ele descreve é autobiográfico. O livro foi terminado no início de 1989 e publicado pela primeira vez em uma revista chinesa em abril daquele ano, mas após os acontecimentos de junho de 1989 e o subsequente rigor da censura foi retirado das livrarias da China. Na China há um termo muito comum, tão usado que chegou a ser incluído na maioria dos dicionários chineses — "acompanhar os prisioneiros ao pátio de execução". Refere-se ao prisioneiro que é levado ao pátio de execução acreditando que vai ser fuzilado, e vê todos os seus companheiros serem executados menos ele. Esta experiência descrita por Zhang é o tema central do livro. "Embora o tiro não seja disparado, a bala do medo e da repressão instala-se no cérebro da gente. Na China, todo intelectual vive com essa bala no cérebro", explica o autor. Acostumado a morrer é narrado em duas vozes de uma mesma pessoa, e é um retrato do que o mundo ocidental chamaria de psicose. Aos olhos dos chineses modernos, porém, é um retrato da normalidade. A China comunista abriu as portas para o Ocidente há apenas uma década, mas quatro quintos da vida do autor foram passados em um sistema antiocidental muito fechado. Dentro dessa estrutura, os acontecimentos da China aqui relatados são considerados racionais e naturais. Contudo, em contraposição, as cenas de Paris, Nova York e San Francisco tornam-se terríveis, e o Ocidente torna-se absurdo e surrealista. E é essa alternância que dá toda a força a Acostumado a Morrer.
Acostumado a Morrer - Getting Used to Dying
Zhang Xianliang
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Ver maisBoas-vindas ao Mundo
Essa é a primeira vez que faço a resenha de um livro e sinto como se estivesse prestes a dar um discurso de apresentação em algum Narcóticos Anônimos. Pois bem, assumo a lisonja de fazê-lo. Quando o li, estava no início da pandemia de 2020 e foi escolhido para leitura movido pela minha curiosidade em conhecer uma obra chinesa, não somente de um autor chinês. Além do mais, esse título é cativante demais para ser ignorado. Faz 4 anos desde a leitura, sendo, assim, não poder correlacionar o que lembro do que se trata de fato. Mas farei um esforço, porque esse livro me marcou da mesma maneira que uma mulher marca aqueles suceptíveis a escrever, ou àqueles que se dirigem aos N.A.. Esta autobiografia documental revela ao mundo as atrocidades que o Partido Comunista Chinês cometia à gênese de intelectuais, artistas, ativistas, opositores, pensadores públicos, onde - no melhor dos termos, - o exílio em outros países significava uma chance de sobrevivência. Caso contrário, como aconteceu com o autor, o cárcere em campos de concentração de trabalhos forçados. Desta maneira viveu boa parte da sua vida, sendo preso por duas vezes, superando a morte por fuzilamento, inanição e esgotamento. Tudo isso por si já é suficientemente rico em detalhes e informações para que se faça denso e interessante o livro. Porém, no meio desse torpe conjunto de páginas, brilham as pepitas douradas de que, em muito mais, fazem esse livro reluzir. São as memórias do autor com as mulheres qual se relacionou. Com destreza as caracteriza; Eleva-as com tamanha devoção, celebrando o respeito que um homem tem sobre uma mulher. Elogia como um verdadeiro (e eterno!) amante mesmo após décadas de contato, sublimando o que há de feminino em gentis palavras que agem como carícias - as predestinadas a estas atenções estarão sempre acalentadas por essa paixão. E, assim, temos a obra de um moribundo intelectual escravizado. Uma raridade saída de angústia - muitos corpos mortos e poucos corpos vivos. A marca que esse livro deixou em mim se trata do elo que fazemos durante a vida. Algumas pessoas são amuletos, esperanças. Outras, fonte de inspiração, força, paixão, Amor. Em especial, as mulheres. (Jan/2024)
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