No deserto do Arizona. Um jovem realizador obcecado com uma ideia para um filme: um único plano-sequência, uma única personagem. Frente à câmara e encostado à parede («como num assalto ou num fuzilamento»), está Richard Elster, um intelectual que, ao serviço do Pentágono, traçou a cartografia conceptual da Guerra do Iraque («eu queria uma guerra em haiku… uma guerra em três versos»). Quando a filha de Elster entra em cena, o fio da conversa filosófica dos dois homens é abruptamente cortado e a dinâmica da história conhece uma dramática inflexão.
“A Epifania Desértica na Narrativa de DeLillo”
“A consciência está esgotada. Voltemos agora à matéria inorgânica. Isto é o que queremos. Queremos ser pedras num campo.” Don DeLillo é um escritor estadunidense que sempre despertou minha curiosidade para conhecer sua literatura. Tenho em minhas mãos o seu famoso romance “Submundo”, que é um calhamaço de mil páginas. Mas optei por começar a ler um mais curto. À priori, ele é curto. Entretanto, enquanto lia, pareceu-me demasiadamente longo. Foi-me difícil articular uma conclusão exata. Uma das tantas conclusões a que cheguei sobre esse romance é que DeLillo nos escreveu uma história para pensarmos sobre qual é a real condição do ser humano. Richard Elster é um homem brusco e enigmático, um professor cujo ensaio sobre o significado da palavra "rendição" lhe rendeu um convite para participar de um comitê ultrassecreto de planejamento de guerra, onde suas contribuições consistem em coisas como a única palavra "haiku". Não acho que devemos entender do que ele está falando. E tem uma filha: a silenciosa Jessie. Jim Finley é um jovem cineasta que viajou para a casa de Elster no deserto da Califórnia para convencê-lo a participar de um documentário explicando seu envolvimento na guerra. Finley é um homem que pensa tão completamente em termos de filme que atua como uma espécie de câmera em movimento no livro, observando e testemunhando os outros. Elster retirou-se dos bastidores da guerra para fazer um “retiro espiritual” no meio do deserto da Califórnia, onde preenche os seus dias com poesia, pôr do sol e discursos filosóficos sem filosofia. Segue-se um discurso, grande parte sobre a obsessão de Elster com uma ideia que ele chama de “ponto ômega”: o desejo coletivo secreto da humanidade de eliminar para sempre o fardo da consciência humana com algum tipo de evento cataclísmico. Ler DeLillo foi como dar uma volta pela primeira vez na montanha-russa: senti-me distante da realidade, confuso, catatônico, vagando por mundos de sonho, perdendo detalhes importantes da vida, esquecendo o significado de palavras básicas e olhando para objetos do cotidiano como se fossem sagradas relíquias. Todos os três personagens centrais deste romance – Elster, Jessie e Finley – são pessoas alienadas e estranhamente desligadas. São indivíduos que vivem num estado de limbo, em busca de algo que possa dar ordem ou sentido às suas vidas ou simplesmente pessoas que vagam em total estado de choque com a aleatoriedade e a ameaça da vida moderna. Essa epifania desértica na narrativa de DeLillo permeada de personagens afásicas, incorpóreas, infinitamente estranha e densa sob um verniz de simplicidade, é algo sobre como essa história explora o infinito e o singular colapsando um no outro, nos induzindo indubitavelmente ao erro a interpretar ao pé da letra esse texto sedutor que quer tentar dizer o indizível. O autor me surpreendeu ao escrever pequenos cenários cuidadosamente construídos montando um labirinto de dispositivos reflexivos e repetitivos, satisfeitos em permitir que o leitor encontre seu caminho através disso. A qualidade estática desse romance deriva do fato de que DeLillo configura situações em vez de desenvolvê-las em detalhes. Essa breve história têm muitos elementos narrativos e DeLillo nunca junta explicitamente esses diferentes elementos (o filme Psicose, a guerra no Iraque, o Ponto Ômega de Teilhard de Chardin) recusando-se em nos explicar insinuando que nós façamos as conexões entre política, cinema e teologia. As lacunas na narrativa me ofereceram uma experiência de leitura difícil e, às vezes, frustrante, pois o romance sugere mais do que realmente deseja transmitir. No entanto, a recusa de DeLillo em me conceder qualquer encerramento dentro da narrativa, pois que, o final ficou sem o seu devido encerramento, o livro oferece uma viagem estimulante enquanto literatura, a pura alegria de ler, de se tornar por minutos, por horas, parte da narrativa do livro. Enigmático e desorientador, lento e desapegado, é uma história concisa, às vezes poética, em que DeLillo oferece recompensas para nós que continuamos (apesar de tudo) e assim desfrutarmos de uma meditação perturbadora e estranhamente alienada. Eu realmente gostei muito deste livro, embora algumas passagens parecessem muito (intencionalmente) planas e em câmera lenta. Mas vale a leitura!!! ⏳📚👨🏽🏫💅🏽☕️📖🤓🕰⌛️
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