Existe um fato alegórico que representa o romance, a mudança de nacionalidade da aldeia. O não falar que este momento provoca permeia todo o relato. Os personagens narram suas relações, porém a interação deles é pobre como a linguagem que perderam. O tom descritivo do livro é a perfeita adequação entre forma e conteúdo. A autora traz a saga de um povo sofrido, pobre, sem recursos, em meio a guerras, mortes, separações, doenças, mas que mantém sempre uma alegria e uma maneira de encarar a vida, mesclando força para lutar contra as adversidades e ao mesmo tempo serena aceitação do inevitável Os livros de Suzana Montoro para jovens e crianças receberam o selo “Altamente Recomendável” da Fundação Nacional do Livro Infantojuvenil (FNLIJ).
Os Hungareses -
Suzana Montoro
OS HUNGARESES, Suzana Montoro
Ofício das Palavras, 182 páginas, São Paulo, 2011. Por centenas de anos as fronteiras dos países do leste europeu movimentaram-se em razão de guerras, disputas, dominações e acordos. Os hungareses, livro de Suzana Montoro, inicia com um fato vivido por vários povos dessa região: a mudança de nacionalidade resultando no inimaginável, a língua que ali era falada, cantada e escrita torna-se proibida. A Rússia, no final do século XIX, é um dos exemplos desse tipo de dominação que não é apenas econômica, política e social. Vai além disso, apropriando-se da fala e da escrita, cortam (literalmente) a voz dos povos na tentativa de, na época, impedir a formação dos estados nacionais e a consequente luta pela independência. Países como a Letônia, Moldova, Polônia e outros da região enfrentaram esse problema. No caso relatado em Os hungareses, a comunicação oficial seria em servo-croata e não mais em húngaro. Essa mudança influenciou profundamente a população que Suzana Montoro retrata em seu livro. A comunicação entre os personagens passa a se dar não mais pela fala, mas por meio de olhares, silêncios, gestos e sentidos. A narradora é a filha caçula de Rozália: “Atenta ao que ela [Rozália] conta, me deixo conduzir, seguindo o fio dos relatos. Ficou ao meu cargo costurar nossa história.” Rozália nasceu em uma pequena aldeia húngara. Órfã de mãe passa a ser cuidada com carinho por sua tia Rózsa. Mas Rózsa era uma andarilha incorrigível. Com o retorno do pai de Rozália à aldeia, Rózsa seguiu novamente seu caminho sem destino. O pai de Rozália mudou-se para a casa da família com a nova mulher e o filho, Lajos, menino que gania ininterruptamente em situação de contrariedade. Rozália apaixonou-se pelo delicado József, desenhista que retratava o cotidiano e paisagens com tocos do carvão produzido na carvoaria montada por seu pai, no cemitério. A paixão não a impede de partir com o pai, a madrasta e o meio-irmão Lajos em direção às terras promissoras do Brasil. O romance segue baseando-se nas descrições dos fatos e não em diálogos, solução adequada para retratar a dificuldade de comunicação oral entre as pessoas. O enredo não se atém em detalhes do período da viagem ou instalação em terras brasileiras. Após os primeiros percalços de adaptação e o reencontro de Rozália com József que também imigrara, encontraremos os viajantes instalados no sítio dos hungareses, “uma espécie de loteamento espontâneo com um aglomerado de casas mais ou menos próximas”. No sítio surgem novos personagens mas, creio, ficaram perdidos entre características e fatos corriqueiros. Laszló, Anna, Franciska, Tamás, Gábor, Agnes, Imre, Maria, Juli, personagens com pequenas participações, fazendo perder um pouco a força do enredo. Trecho predileto p.176. “A gente se acostuma a muita coisa nesta vida. Mas pessoas irem embora é coisa que não dá tempo de se acostumar. Porque no lugar da pessoa fica o espaço que ela deixou e que só pode ser ocupado pela lembrança. O que resta é um vazio cheio de ausência. É como a porta de um quarto. Mesmo que fechada, do outro lado está o quarto. A gente vai vivendo até que um dia passa diante do quarto e resolve abrir a porta por um motivo qualquer. Quando abre, vê o vazio ocupando o espaço. Todas as pessoas que partiram da minha vida deixaram um espaço tomado. Eu nem tive tempo de me acostumar com o vazio. Já fui me preenchendo de ausências. Quando o sítio se esvaziou de pessoas, foi sendo ocupado pelos espaços que elas deixaram e virou uma terra de ninguém. A aldeia, eu nunca soube em que se transformou. Uma e outro são as pontas do novelo em que se desenrolou minha vida e o que está entre são como as águas de um rio que correm da nascente à foz. Meu viver, nascido na terra dos magiares, não teria outro lugar onde desembocar senão na terra dos hungareses. Depois de tudo fiquei assim, ocupada dentro e fora por essa extensão indefinida de lembranças e passado.”
Estatísticas
Avaliações
4.3 / 16- 5 estrelas50%
- 4 estrelas31%
- 3 estrelas19%
- 2 estrelas0%
- 1 estrelas0%
