“Esteiros” retrata a miséria que anda lado a lado com a riqueza de um país de oportunidades desiguais. É possível observar, por um lado, a luta trágica dos operários para sobreviver. As crianças, em idade escolar, entre os homens, recolhem o barro dos esteiros, para dele fazerem telhas e tijolos. Vivem de acordo com o que as estações proporcionam e trabalham a troco de um salário miserável, o que os condena à mendicidade, a uma vida sem saída da pobreza. Para escapar dessa condição seria necessário estudar, mas para que consigam se alimentar e ajudar a família, precisam abandonar a escola e iniciar a vida de trabalho muitas vezes antes mesmo que possam se alfabetizar, isso quando ainda conseguem frequentar a escola por algum período. Resulta num ciclo de “filhos dos homens que nunca foram meninos”.
Por outro lado, é possível observar a discrepância entre realidades a partir de algumas passagens e personagens. Enquanto as crianças dos esteiros abandonam a escola para trabalhar, passam fome, frio, pedem esmolas para sobreviver, o filho do dono das terras da região não tem nem ideia do que se passa fora de sua casa confortável, enquanto aproveita sua infância com brinquedos e completa seus estudos. Uma passagem notável é a ida de turistas da cidade para “apreciar” a destruição causada pelas cheias. A desgraça é entretenimento.
Fica claro como ambas as realidades coexistem e perpassam uma pela outra, o que reforça a crítica da obra acerca de realidades tão opostas em um mesmo espaço.