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    junco -

    Nuno Ramos

    iluminuras
    2011
    120 páginas
    4h 0m
    ISBN-13: 9788573213485
    Português Brasileiro
    3.5
    14 avaliações
    Leram30Lendo2Querem15Relendo0Abandonos0Resenhas2
    Favoritos1Desejados15Avaliaram14

    Antes mesmo de sua publicação em livro, Junco ganhou de alguns de seus leitores um epíteto — “a máquina do mundo cão” — que parece difícil de descolar desse conjunto de poemas em que Nuno Ramos vem trabalhando nos últimos catorze anos. Não é preciso adivinhar a referência à busca do sentido do mundo, à “total explicação da vida” que espantosamente se abre aos olhos de um caminhante solitário, ainda que para se recolher, logo em seguida, e sem desfazer o enigma, como no poema de Drummond. A máquina do mundo se expõe diretamente aí em nota e em recortes brevíssimos, encravados nos textos. E se oferece, ainda, como cena primordial — no meio do caminho da vida — que organiza a paisagem marítima infernal — praia, praia, praia, praia - na qual se opera um misto de junção e tensão figural, que estrutura, em via dupla, mas em mútua interferência, a série poética de Nuno Ramos, entre os restos de um cachorro morto largado no asfalto e os de um cadáver de árvore, junco jogado na areia. E também entre texto e fotografia — pois, ao lado da sucessão de refigurações de cão e junco, reitera-se literalmente, ao longo do livro, a exposição de imagens do tronco na beira do mar e do cachorro morto no chão. A trama dupla, no entanto, se sugere o analógico, é para travá-lo em seguida. Mesmo que as fotos os apresentem em disposição quase idêntica, parecendo reforçar comparações, é impossível não ver a matéria diversa de que são feitos animal e caule. Pois cão é cão e junco é planta. E mesmo que o caule se exponha como cão-lagarto, lambendo algas, e ao cão, no asfalto, se possa ver como junco, lenha, banha, planta, persiste a dissimetria. E é pela insistência nesse paralelismo, mas a distância, das imagens que Nuno Ramos se avizinha, em movimento largamente expansivo, do belíssimo jogo entre bala, relógio e lâmina, rea­lizado por João Cabral de Melo Neto em Uma faca só lâmina. Acrescentando-se, assim, a um modo cindido de figuração (reduplicado, ainda, entre lágrima e onda) outra tensa articulação — entre o poema narrativo e a composição serial, e entre o formato circunflexo, expressivo, do rosto e o livro silencioso de areia com que se encerra o último poema. Flora Süssekind

    Resenhas (2)Ver mais
    Luiz Pereira Júnior picture
    Luiz Pereira Júnior13/08/2022Resenhou um livro
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    As palavras e a morte

    Li “Junco”, de Nuno Ramos, pela razão de ele vir como um dos autores estudados no livro didático que é adotado em uma das escolas em que leciono. E também tenho plena consciência de que, sim, sou um privilegiado por poder comprar livros (cada vez mais caros) para poder me aprofundar em minha profissão. Sem trocadilhos com o tema das imagens apresentadas no livro, posso dizer que poesia não é necessariamente minha praia. Leio poemas para me inteirar sobre o que está sendo produzido ou o que foi produzido de relevante na literatura, mas raras vezes me identifico com os versos. Melhor dizendo, raros são esses autores (Cecília, João Cabral, Bandeira, Pessoa, Yeats e Eliot são os que me vêm à cabeça no momento). “Junco” é uma bela obra de literatura contemporânea, ao mesclar imagens e palavras, algo que, a bem da verdade, William Blake já fazia séculos atrás. Para mim, o mais comovente foi poder comparar fotos de cães mortos em rodovias e de troncos de árvores mortas em praias desertas aos poemas. Mas isso também me leva ao outro extremo. Será que eu gostaria de “Junco” se não houvesse tais imagens? O efeito seria o mesmo se não olhasse para as fotos dos mortos? É uma pena constatar que não, não seria o mesmo. A leitura dos poemas me levaria inequivocamente a João Cabral de Melo Neto e eu correria o risco de apenas ler os versos como uma espécie de homenagem ao autor pernambucano, na melhor das hipóteses, ou em simples cópia e apropriação (porém não cheguemos ao exagero de considerar plágio os poemas de Nuno Ramos). Enfim, uma bela obra que terá diferentes leitores: para alguns deles, o mais comovente serão as imagens da morte anônima e indecifrável (algo que chega mesmo a tornar os poemas dispensáveis); para outros, o mais surpreendente serão os versos indubitavelmente cabralinos; e alguns conseguirão olhar o todo de uma forma a tudo abarcar. É com você, leitor!

    1 curtida

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    Nuno Álvares Páscoa de Almeida Ramos profile picture

    Nuno Álvares Páscoa de Almeida Ramos

    Escultor, pintor, desenhista, cenógrafo, ensaísta, videomaker. Nuno Álvares Pessoa de Almeida Ramos cursou filosofia na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo - FFLCH/USP, de 1978 a 1982. Trabalha como editor das revistas Almanaque 80 e Kataloki, entre 1980 e 1981. Começa a pintar em 1983, quando funda o ateliê Casa 7, com Paulo Monteiro (1961), Rodrigo Andrade (1962), Carlito Carvalhosa (1961) e Fábio Miguez (1962). Realiza os primeiros trabalhos tridimensionais em 1986. No ano seguinte, recebe do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo - MAC/USP a 1ª Bolsa Émile Eddé de Artes Plásticas. Em 1992, em Porto Alegre, expõe pela primeira vez a instalação 111, que se refere ao massacre dos presos na Casa de Detenção de São Paulo (Carandiru) ocorrido naquele ano. Publica, em 1993, o livro em prosa Cujo e, em 1995, o livro-objeto Balada. Vence, em 2000, o concurso realizado em Buenos Aires para a construção de um monumento em memória aos desaparecidos durante a ditadura militar naquele país. Em 2002, publica o livro de contos O Pão do Corvo. Para compor suas obras, o artista emprega diferentes suportes e materiais, e trabalha com gravura, pintura, fotografia, instalação, poesia e vídeo.

    21 Livros
    2 Seguidores
    São Paulo , Brasil

    Nuno Álvares Páscoa de Almeida Ramos