"Cartas Persas" é um romance epistolar agradabilíssimo de se ler. Trata da viagem de dois persas, Uzbek e Rica, que, pretendendo conhecer a Europa (mais especificamente Paris), deixam seus serralhos (ou haréns, digamos) de Isfahan, atual Irã, e empreendem uma viagem sem par para ambos. Dessa forma, deixam para trás também suas mulheres (principalmente Uzbek, que sofrerá com as cartas dos eunucos, guardiões destas, pelas agruras por que passam e provocam).
Desde o princípio, devemos entender o sentido satírito e crítico de Montesquieu ao compor tais personagens e as cartas. Primeiramente, é preciso considerar que, se tratando de epístolas, vemos somente o ponto de vista de cada missivista (logo, não há qualquer sombra de crítica a quaisquer costumes muçulmanos, pois a ótica é a de Uzbek, de Rica e de seus respondentes - mulás, eunucos negros e brancos, inclusive suas esposas).
Uzbek e Rica se deparam com muitos choques, principalmente o cultural, vendo como a civilização ocidental, de origem religiosamente cristã, filosoficamente grega e juridicamente romana, é diferente em quase tudo quando comparada ao estado de coisas do mundo islâmico, em especial ao persa. Mas para além do choque de cultura, também se verifica o político e o legal - as cartas estão no contexto do Rei Luís XIV (sim, o do "o Estado sou eu".
As cartas abordam também as disferenças de tratamento às muiheres, às riquezas pessoais e até aborda a alquimia, vista como loucura por Uzbek, bem como é contada a história da criação do... rato, narrada pelo próprio Noé, tendo o roedor nascido de esterco de elefante - e a origem do gato, nascido do nariz do leão.
Uzbek e Rica parecem tão impressionados com o Ocidente que meio que relegam suas posses persas e suas mulheres ao esquecimento, em certo sentido - coisa que tratá consequências catastróficas para Uzbek, em particular.
A prosa de Montesquieu é uma graça e sutilmente crítica. Livro altamente recomendável.