É baseado na busca deste princípio único que Edward Dawson, o protagonista do livro Entre a Fé e o Pecado, do autor britânico Piers Paul Read, fundamenta a sua vida. Monk Dawson (título original do livro de 1969) traz temáticas como religião católica, relações amorosas, e um pouco das características do jornalismo de meados do século XX (estas, não tão relevantes no contexto da história, mas destacável para uma estudante de jornalismo). Relata com uma linguagem acessível a trajetória do homem dividido entre o bem e o mal, tema bastante abordado nas obras de Read. A história de Dawson é narrada pelo seu melhor, ou único, amigo, Winterman. Os dois conheceram-se ainda na infância, quando eram estudantes de um internato mantido por monges beneditinos, no interior da Inglaterra. Ao longo dos anos em Kirkham, Dawson expõe ao amigo sua "ambição de beneficiar a humanidade". Sentia-se destinado a isso, mas seguia em constante indagação sobre a melhor maneira de por em prática seus anseios. Foi durante uma conversa a respeito do seu futuro que o padre Timothy incentivou o jovem Eddie a entrar para o mosteiro. E assim, seis anos mais tarde, o sacerdote Edward Dawnson acreditou no catolicismo como sua primeira tentativa de encontrar um princípio único.
Entre a Fé e o Pecado -
Piers Paul Read
Ou, entre o sentido da vida e a falta completa dele
enredo: Dawson torna-se padre porque tem uma ambição: ajudar o maior número possível de pessoas. Contudo, provando das limitações da Igreja (e da própria fé), abandona a vida religiosa e parte para o mundo cético, mas mantendo aquela ambição... e continuando a provar outras limitações. Que saída há, se onde quer que se vá existem dogmas e seus pontos cegos? Que saída há, se em todo lugar existe o vazio de sentido e significado? (possíveis) pontos positivos: - meio que 'romance de formação', acompanhando o protagonista desde sua infância; - uma visão detalhada da vida religiosa dos internatos e monastérios (quase uma etnografia); - o enredo baseado num drama filosófico que todos nós já sentimos alguma vez em algum momento de nossas vidas; - escrita com ironias e tiradas críticas sobre política e religião. (possíveis) pontos negativos: - o enredo é menos sobre o que acontece e mais sobre o que o protagonista pensa, reflete e decide; - o viés narrativo (o amigo do protagonista narrando a história) fica um pouco perdido, com ares de gratuito, dispensável; - hoje em dia, um pouco datado quanto aos valores morais que expõe e que tenta polemizar. o que mais impressionou: a trajetória do padre Dawson, que expõe como somos superficiais ao criticar a religião. Isto é, criticamos a igreja (e seu universo religioso) por ser alienante, cheia de dogmas e tabus, cheia de elementos que acreditamos e reproduzimos acriticamente; mas, ao mesmo tempo, no mundo cético e ateu, somos rendidos por tantas outras alienações e regras e pactos irrefletidos. No fim, o que a narrativa mostra é que podemos, com legitimidade, recusar a visão religiosa pelo que é, mas a alternativa (o mundo leigo com seus excessos e jogos de poder e vaidade e prazeres fúteis) também não é muito nobre, justa ou libertadora. Na busca por um sentido à vida, talvez ele não esteja nesse deus que nos vendem... mas estará no carro do ano, na festa alcoólica do final de semana, na satisfação de uma nova e temporária paixão amorosa? "Mas os outros pareciam ter consolações simples para a esterilidade de suas vidas, como o entusiasmo pelo futebol. Seria isso que os mantinha vivos? Sábados no estádio? Agosto na praia?"
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