O dia em que eu deveria ter morrido -

    Javier Aranciba Contreras

    Terceiro Nome
    2010
    144 páginas
    4h 48m
    ISBN-13: 9788578160715
    Português Brasileiro

    por Fal Azevedo O dia em que eu deveria ter começado. O dia em que eu deveria ter deixado para lá. O dia em que eu deveria ter amado mais, amado menos, esquecido, lembrado, sido, não sido. O dia em que eu deveria ter ido. Ter ficado. O dia em que eu deveria ter morrido. O dia em que eu deveria ter morrido é uma aventura frenética, que saiu da cabeça do Contreras para se instalar na minha e me deixar aflita. Alerta. Tomada. João precisa encontrar a ex-mulher, que desapareceu. João precisa encontrar a si mesmo – e não, isso passa longe de qualquer clichê que você conheça –, precisa juntar as pontas perdidas, precisa recomeçar, precisa descobrir o que é real e o que não é. Num texto ágil, levinho e gingado, Contreras escreveu um romance complexo, bem tecido, narrativa em vários níveis, personagens bem estruturadas e tudo aquilo que ensinam a gente que um livro bom tem que ter. Este tem. Porque o livro é bom, porque a história tem pegada, Contreras espera que você saia por aí feito um maluco. Ele quer que você siga João em sua correria através de inúmeros buracos e abismos, pinguelas e fossos de areia movediça. E você vai, porque o João é maluco, mas parece ser confiável. Juntos por um monte de cidades, vocês vão procurar e vasculhar e pensar. Vão lembrar e esquecer e, sim, você vai mesmo ficar sem fôlego. Mas não vai parar. Os dias parecem se arrastar pro João, mas as horas voam pra mim. Quando João resolve sair – não vou contar de onde – no quarto dia, resolvo ir pegar água na cozinha. Não, mentira, resolvo ir fazer um tódi. Mas daí decido ler só mais um pouquinho. Não fiz meu tódi. O João sente calor. Um calor acachapante (este livro é colorido com palavras deliciosas, palavras que adoro ler e usar, chiste, barafunda, astuto, capangas, pirraça, discernimento, descorçoadas, morosidade, sinuca, engodo, gentarada, demente, aporrinha, acachapante), mas eu sinto certo frio e me embrulho na manta verde-menta. Quando o sol da manhã bate no rosto dele, um comecico de nada de luz me alcança. Meu cãozinho ergue a cabeça, é quase hora dele ir passear, seres madrugadores que somos. Mas faço mais uma porção de anotações no meu bloquinho em formato de Pão de Açúcar e finjo que não percebi. Li este Contreras enterrada no sofá da casa da minha mãe, a casa onde vivo agora, enquanto um gatinho recém-resgatado caçava meu cabelo ou dormia, caçava meu cabelo ou dormia. Fui incapaz de fazer qualquer das cousas que me esperavam (todas num grau de glamour sem par: trocar a areia dos gatos, lavar louça, guardar os muitos DVDs espalhados pela sala e botar o lixo para fora). Não fiz nada disso e quando o caminhão de lixo passou eram 5 e meia da manhã, João estava indo cada vez menos à redação, delegando responsabilidades e passando a chefia pro Borges, e, seguindo seu mau exemplo, resolvi fazer o mesmo. Quando me dei conta de que não tinha pra quem delegar a retirada do lixo, baubau. Tarde demais. Além de me impedir de cumprir com minhas obrigações, Contreras me deixou dias pensando no João. Nos motivos, nos desejos, nos moveres do João. Quando o livro acabou, quase que não consegui me levantar do sofá. E quando me levantei, foi para andar abobada pela sala, tentando me lembrar como é que se respira. Saí pra rua. Baco lá na frente, vasculhando matinhos; eu atrás, achando aquilo tudo um pavor (detesto o mundo-lá-fora), pensando nas viagens do João, nos encontros dele. Nas coisas que ele queria achar, na coragem dele. Não vou contar demais. Esta não pode ser uma resenha que analisa miudinho, porque estragaria toda a história do Contreras. Espero não ter contado mais do que deveria. Preciso parar de me apaixonar por jornalistas, por bons narradores e por homens que saem desembestados pelo mundo. Não necessariamente nessa ordem. OBS: Ah, contei, num contei? Tem um Borges no livro. Borges. Pô, um livro que tem um Borges merece ser lido. Não. Precisa ser lido. Fonte:http://www.amalgama.blog.br/04/2011/os-dias-de-joao/

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