Quando Manoel de Barros versa que "Desaprender oito horas por dias ensina os princípios", ele, assim como Caeiro, está a nos dizer que: Procuro despir-me do que aprendi / Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram. Essas relações entre a poesia de Alberto Caeiro e Manoel de Barras já estão dadas, discutidas. Mas é válido começar por elas. Quando Manoel disse que deus deu a forma e os artistas deformam", isso lá no livro sobre nada, alguns anos depois deste livro, ele recuperava essa ideia do desaprendizado.
Além de destreinar olhos treinados, em O Livro das Ignorãças, Manoel de Barros desestabiliza a semântica das palavras, fazendo com o que o sentido delas se imploda, afinal, como o verbo tem que pegar delírio, é só atravessado por ele que a tessitura da sua poesia se desdobra, se entrelaçando numa voz própria e sem conclusões capturáveis.
Quem pode dar o caminho? A criança. A ingenuidade daquele que não se encerra ao mundo, que não dá às costas a ele. Parafraseando Nietzsche, a maturidade do homem não seria retomar a seriedade ao brincar, tal como fazíamos quando crianças?
Esse vagar rumorejante entre livros, entre lições, é posto que o poeta renasça. Como uma criança, brincar com palavras desenhando versos, fazendo dela artifício, artefato, saboreando-a.
São três partes: Uma didática da invenção, Os deslimites da palavra. Todas em tônica experimentalíssima, sedimentando essa poética antiverborragica, desinventando palavras, a metonímia elevada ao paroxismo. Afinal, não é o mundo que é pequeno, é nossa relação signíca limitante para com ele, que o torna tão decifrável. Voltemos à infância, é hora de renascer. Tudo pode ser recriado.