Tomei conhecimento da existência deste clássico da literatura da então nascente União Soviética graças a Rubem Fonseca e um dos meus romances nacionais favoritos até hoje, "Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos" (1988), uma vez que "A Cavalaria Vermelha", de Isaac Babel, é frequentemente citado nas páginas da obra-prima noir/policial de Fonseca. Desde então 'arquivei' mentalmente a ideia de, um dia, ler o livro soviético pra matar a curiosidade - a qual foi recentemente reavivada pela lembrança de um amigo, o que me levou a comprar a obra em um sebo de São Paulo e finalmente partir pra leitura.
Apesar de ser recebido na própria 'mãe Rússia' como "retrato romântico da guerra civil", o livro me pareceu um retrato direto, firme, sem grandes floreios, tampouco eufemismos, sobre o que foi a guerra entre os Vermelhos e os Brancos num de seus trechos mais difíceis: a Polônia, já tendo a cavalaria mencionada no título avançado muito nos países a oeste da Rússia até chegar ali, onde sabemos que encontraram dificuldades mais substanciais. Possivelmente, essa acusação de 'romantizar' a guerra deve ter vindo dos vários momentos bem-humorados que cortam uma narrativa que no todo é dura e bastante violenta, mas só reforçam e humanizam soldados que são gente como a gente e encontram espaço para a descontração mesmo em meio ao acúmulo aparentemente interminável de cadáveres. São tipinhos toscos de farda e ushanka, capazes de matar, de foder, de brigar (entre si, inclusive) - mas, afinal, também de rir.
Babel não tirou aquelas descrições da pura imaginação. Ele próprio esteve no campo de batalha. Ergueu seu sabre contra os Brancos junto com os cossacos, muitos dos quais nutriam pelo 'quatro olhos' certa desconfiança (que se faz notar em determinados personagens do livro) - o que é perfeitamente compreensível pra qualquer um que sabe o quanto os "intelectuais" mencheviques da Rússia olhavam os então insurgentes e promissores bolcheviques - nada mais que uma massa de gente pobre, faminta e muito trabalhadora - de narizinho empinado, frequentemente falando 'français' pra se distinguir da 'pobraiada' analfabeta, comportamento que, ironicamente, o próprio Trotski (citado várias vezes no livro, já que era então comandante do exército vermelho) exibiria mais tarde. Ele, Lênin e Makhno são aludidos em diversos momentos das (breves) histórias, sempre como figuras distantes, inalcançáveis pelos 'reles mortais' ali na luta diária, mas de certa forma onipresentes e parte do cotidiano de todos.
Na verdade, "A Cavalaria Vermelha" é uma série de pequenos contos - os maiores não chegam a dez páginas, os menores tem só duas - descrevendo com concisão as aspirações, os medos e os desejos dos cossacos e os poloneses. Mais do que isso, há com bastante intensidade o elemento religioso, da fé cristã-ortodoxa dos Vermelhos (e católica, no caso dos poloneses), emergindo ali num sem fim de alusões, elemento cultural que acompanho com interesse presente, mas necessariamente distanciado, já que sou incapaz de fé. De toda maneira, uma ótima leitura, especialmente proveitosa por ter sido feita agora, em novembro de 2017, exatamente um século após a revolução socialista que mudou a configuração política de todo o século XX.