Que país é este? É a pergunta que surge da leitura das situações absurdas e cômicas que as crônicas de Lima Barreto apresentam. A resposta se encontra em nossa própria realidade. Em Os Bruzundangas, o mestre da paródia e da sátira na literatura brasileira simula uma viagem a um país imaginário. Através dele, faz um bem-humorado retrato das mazelas do Brasil no início do século. Os Bruzundangas são uma coletânea de crônicas publicadas na imprensa por Lima Barreto. Revelam seu humor refinado e sintonia com a nossa realidade. O autor é um mestre da ironia, recurso que se adapta perfeitamente a um projeto literário fundamentado na denúncia dos problemas brasileiros. Este é o compromisso presente em toda a obra do escritor, cuja linguagem simples foge ao preciosismo retórico. Lima Barreto (1881-1922) é um dos maiores escritores do Pré-Modernismo brasileiro.
Os Bruzundangas -
Lima Barreto
A BRUZUNDANDA QUE SE ETERNIZA
ESCREVI ESTE TEXTO HOJE. 07/05/ 2021 Um sujeito atira a esposa do quarto andar de um prédio e leva 3 anos para ir a julgamento, em Salvador dois sujeitos (quase pretos), roubam carne em um supermercado, são flagrados e entregues no mesmo dia a traficantes que matam os dois e atiram os corpos no meio da rua, caixas eletrônicos são explodidos país afora, a criminalidade não conhece limites, segue incólume estabelecendo verdadeiros Estados paralelos. As grandes cidades do país não passam de tristes cenários invertidos de nosso passado. Casa Grandes cercadas por favelas de todos os lados, que terminam reproduzindo infindáveis chacinas como a de ontem no Jacarezinho (Rio de Janeiro), que deixou um saldo de 25 pessoas mortas. O país vive hoje uma miséria generalizada a níveis nunca vistos com desemprego ou subemprego à larga, a espera que o cidadão seja empreendedor. Enquanto isto, um ex-presidente da República que foi acusado de todo tipo de roubalheira, é preso, julgado, condenado e cumpre pena, para mais adiante, a mesma justiça (que tem vários desembargadores presos por corrupção), anular o julgamento (?). Em Brasília os excelentíssimos senhores senadores da república discutem acaloradamente sobre o sexo dos anjos no caso da CPI da Covid, pandemia que já matou 400.000 brasileiros. Tudo isto nos leva a enlaces entre ficção e a realidade. Para quem não sabe, Os Bruzundangas são os habitantes de um país imaginário criado pelo escritor Lima Barreto em obra publicada em 1922. Naquela sociedade, Tendo crescido imensamente o número de doutores, eles, seus pais, sogros etc. trataram de reservar o maior número de lugares do Estado para si. A primeira cousa que um político de lá pensa, quando se guinda às altas posições, é supor que é de carne e sangue diferente do resto da população. O valo de separação entre ele e a população que tem de dirigir faz-se cada vez mais profundo. Tratam, no poder, não de atender as necessidades da população, não de lhes resolver os problemas vitais, mas de enriquecer e firmar a situação dos seus descendentes e colaterais. Ninguém tem muito amor pela própria terra. O ideal de todo e qualquer natural da Bruzundanga é viver fora do país. O líder nacional, conhecido como mandachuva, É escolhido entre os advogados, mas não julguem que ele venha dos mais notáveis, dos mais ilustrados, não: ele surge e é indicado dentre os mais néscios e os mais medíocres. Quase sempre, é um leguleio da roça. Escreve ainda Lima Barreto: Os preponderantes e influentes têm todo o interesse em não fazer subir os inteligentes, os ilustrados, os que entendem de qualquer cousa; e tratam logo de colocar em destaque um medíocre razoável que tenha mais ambição de subsídios do que mesmo a vaidade do poder., e aquela república imaginária: Pode ser definida a feição geral da sociedade da Bruzundanga com uma palavra medíocre. Eis a nossa belíssima democracia, a nossa política safada, a nossa eficientíssima justiça, o nosso degredo moral que nos coloca na rabeira das nações do planeta! O pior é que ao longo do tempo, estamos nos tonando uns medíocres violentos... violentíssimos.
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