Em minha pequena (e breve) incursão pelos romances da década de 30, me deparei com um caso que me pareceu isolado. Diferentemente das vertentes sociais e intimistas independente da minha recusa a essas definições, as uso para fins didáticos , o romance de Jorge de Lima se situa fora dessa pretensa polarização.
Um romance de reminiscências, de memórias, A Mulher Obscura, às vezes prosa poética, é uma narrativa sem muitos acontecimentos, que se dilata em torno de um passado e de uma projeção futura. Fernando, o protagonista, ao voltar a sua cidade natal, visualiza em cada objeto âncoras de um passado não tão distante. Ele busca compreender a si, ao mesmo tempo que não suporta as próprias memórias. Conhecemos um pouco do seu desenvolvimento justamente pelas memórias contadas por esse narrador-testemunha, afinal, Fernando é atormentado por suas memórias.
O título do romance, aparentemente, diz respeito à sua eterna amada Constança, uma paixão da infância. Entretanto, no decorrer da narrativa, essa idealização se direciona para outras mulheres. A dita mulher obscura é aquela que Fernando ainda procura. O que ele fazia era, nas palavras dele, transferir a mulher procurada para uma mulher imediata.
Hilda, uma de suas paixões, afirma algo a Fernando que me parece explicá-lo: Você não acha que às vezes a vida está tão vazia que é preciso enchê-la, quanto antes, com qualquer coisa? A pergunta não é despropositada, afinal, Hilda compreende a obsessão de Fernando por ela (e por outras), pois ele procura preencher sua vida com rostos na multidão.
O romance, obviamente, não se limita a essa procura, pois no ínterim dela, o foco narrativo vai encontrando outras personagens e mostrando diálogos. Destaco dois personagens: um padre e um juiz. Um padre moralista (por mais que isso soe redundante) e um juiz eugenista muito seguro de si. Personagens que travam diálogos muito acalorados e que remetem aos embates de Settembrini e Naphta em A Montanha Mágica.
Ambos desejam aconselhar o protagonista, discursar, como se realmente existisse uma teoria do medalhão, uma forma de ser & se portar. Cada qual com suas justificativas, são eles, que no fim, em uma solução bem artificial por parte de Jorge de Lima, esquadrinham a personalidade de Fernando a ele próprio, que escuta escondido, e simultaneamente a nós leitores.
Apesar de, narrativamente, não integrar muito um enredo envolvente e estruturalmente adensado, do ponto de vista da linguagem o romance é um primor.
O que fica, é um movimento contínuo entre os tempos, entre as memórias, um sofrimento agudo de alguém que busca se encontrar, um doutorando que o faz mais pelo preenchimento do tempo do que pelo título
Por mais que tentasse a todo custo, no fim, [sua] memória desapiedadamente continuava a [lhe] tiranizar. Ele se pergunta: Onde estava a mulher ideal há tanto tempo procurada?
Ao fim, ao fugir da sua cidade, encontra uma nova mulher. Essa aparente prostitua, seria, então, a nova mulher obscura? Uma procura cíclica?