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    A Mulher Obscura -

    Jorge de Lima

    Civilização Brasileira
    1998
    234 páginas
    7h 48m
    ISBN-10: 8520004628
    Português Brasileiro
    4.1
    7 avaliações
    Leram17Lendo4Querem40Relendo0Abandonos2Resenhas2
    Favoritos2Desejados40Avaliaram7

    Neste título, o enredo gira em torno da busca do amor -- a Bem-amada, que domina a vida da personagem central: Fernando é um homem sensível, obcecado pela figura materna que nunca conheceu. O que poderia ser a simples crônica de uma cidadezinha do interior, com as descrições habituais do pequeno círculo de personagens que compõem a trama -- o padre, o juiz, o boticário -- transforma-se, graças a prosa poética e a sensibilidade de Jorge de Lima, em um romance denso, belo e de grande valor literário.

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    Matheus Petris picture
    Matheus Petris19/09/2023Resenhou um livro
    3 (Bom)

    Em minha pequena (e breve) incursão pelos romances da década de 30, me deparei com um caso que me pareceu isolado. Diferentemente das vertentes sociais e intimistas — independente da minha recusa a essas definições, as uso para fins didáticos —, o romance de Jorge de Lima se situa fora dessa pretensa polarização. Um romance de reminiscências, de memórias, A Mulher Obscura, às vezes prosa poética, é uma narrativa sem muitos acontecimentos, que se dilata em torno de um passado e de uma projeção futura. Fernando, o protagonista, ao voltar a sua cidade natal, visualiza em cada objeto âncoras de um passado não tão distante. Ele busca compreender a si, ao mesmo tempo que não suporta as próprias memórias. Conhecemos um pouco do seu desenvolvimento justamente pelas memórias contadas por esse narrador-testemunha, afinal, Fernando é atormentado por suas memórias. O título do romance, aparentemente, diz respeito à sua eterna amada Constança, uma paixão da infância. Entretanto, no decorrer da narrativa, essa idealização se direciona para outras mulheres. A dita mulher obscura é aquela que Fernando ainda procura. O que ele fazia era, nas palavras dele, “transferir a mulher procurada para uma mulher imediata”. Hilda, uma de suas paixões, afirma algo a Fernando que me parece explicá-lo: “Você não acha que às vezes a vida está tão vazia que é preciso enchê-la, quanto antes, com qualquer coisa?” A pergunta não é despropositada, afinal, Hilda compreende a obsessão de Fernando por ela (e por outras), pois ele procura preencher sua vida com rostos na multidão. O romance, obviamente, não se limita a essa procura, pois no ínterim dela, o foco narrativo vai encontrando outras personagens e mostrando diálogos. Destaco dois personagens: um padre e um juiz. Um padre moralista (por mais que isso soe redundante) e um juiz eugenista muito seguro de si. Personagens que travam diálogos muito acalorados e que remetem aos embates de Settembrini e Naphta em A Montanha Mágica. Ambos desejam aconselhar o protagonista, discursar, como se realmente existisse uma “teoria do medalhão”, uma forma de ser & se portar. Cada qual com suas justificativas, são eles, que no fim, em uma solução bem artificial por parte de Jorge de Lima, esquadrinham a personalidade de Fernando a ele próprio, que escuta escondido, e simultaneamente a nós leitores. Apesar de, narrativamente, não integrar muito um enredo envolvente e estruturalmente adensado, do ponto de vista da linguagem o romance é um primor. O que fica, é um movimento contínuo entre os tempos, entre as memórias, um sofrimento agudo de alguém que busca se encontrar, um doutorando que o faz mais pelo preenchimento do tempo do que pelo título… Por mais que tentasse a todo custo, no fim, “[sua] memória desapiedadamente continuava a [lhe] tiranizar”. Ele se pergunta: “Onde estava a mulher ideal há tanto tempo procurada”? Ao fim, ao fugir da sua cidade, encontra uma nova mulher. Essa aparente prostitua, seria, então, a nova mulher obscura? Uma procura cíclica?

    52 curtidas

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    4.1 / 7
    • 5 estrelas57%
    • 4 estrelas29%
    • 3 estrelas0%
    • 2 estrelas0%
    • 1 estrelas14%
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    Jorge de Lima

    Era filho de um comerciante rico e mudou-se para Maceió em 1902, com a mãe e os irmãos. Em 1909 foi morar em Salvador onde iniciou os estudos de medicina. Concluiu o curso no Rio de Janeiro em 1914, mas foi como poeta que projetou seu nome. Neste mesmo ano publicou o primeiro livro, XIV Alexandrinos. Voltou para Maceió em 1915 onde se dedicou à medicina, além da literatura e da política. Quando se mudou de Alagoas para o Rio, em 1930, montou um consultório na Cinelândia, transformado também em ateliê de pintura e ponto de encontro de intelectuais. Reunia-se lá gente como Murilo Mendes, Graciliano Ramos e José Lins do Rego. Nesse período publicou aproximadamente dez livros, sendo cinco de poesia. Também exerceu o cargo de deputado estadual, de 1918 a 1922. Com a Revolução de 1930 foi levado a radicar-se definitivamente no Rio de Janeiro. Em 1939 passou a dedicar-se também às artes plásticas, participando de algumas exposições. Em 1952, publicou seu livro mais importante, o épico Invenção de Orfeu. Em 1953, meses antes de morrer, gravou poemas para o Arquivo da Palavra Falada da Biblioteca do Congresso de Washington, nos Estados Unidos da América. [editar] Estilo e personalidade Entre 1937 e 1945 teve sua candidatura à Academia Brasileira de Letras recusada por seis vezes. Para Ivan Junqueira, a Academia cometeu uma imperdoável injustiça com o autor, cujo trabalho literário foi excepcionalmente bem recebido pela crítica e pelo público. O acadêmico não acredita que o poeta tenha transitado à margem da literatura de seu tempo e, afirma, quando se refere ao maior poema do autor - Invenção de Orfeu, "…até hoje, transcorridos mais de 50 anos de sua publicação, não há poeta brasileiro que dele não se lembre." Os textos de Jorge de Lima abrigam uma colossal possibilidade de leituras (a convivência entre a tradição e o novo, o vulgar e o sublime, o regional e o universal) refletem um artista em constante mutação, que experimentou estilos diversos como o parnasiano, o o regional o barroco, o religioso. Na sua multiplicidade, Jorge de Lima pertence a todas as épocas, mesmo se reportando a um tema ou uma situação específica, ao tocar em injustiças sociais que mudaram pouco desde o início da civilização e quando escreve sobre as grandes dúvidas de todos nós, "…da miséria humana, da tentativa de superação de nossas amarras e de nossas limitações.", explica o poeta e jornalista Claufe Rodrigues, leitor voraz de Jorge de Lima.

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    Alagoas, Brasil

    Jorge de Lima