Outubro. Um livro bem forte, mas tão doce. Tive que me recuperar um pouco pra começar a escrever sobre ele, mas vou tentar. Devo primeiro elogiar a autora Kamile Girão, pois vi um grande avanço em termos de escrita do seu primeiro livro para esse. Os dois são de temáticas completamente diferentes, mas é notável a melhora, assim como eu acredito que será notável na segunda edição de Yume.
Agora sobre Outubro, o livro intercala duas épocas das vidas de Kaero e Shau. 2004 e 2013. Tudo é uma passagem nas duas épocas e em ambas existe um prazo. Eu adoro como isso tudo se relaciona ao Outono, as folhas que caem e são renovadas, tudo nesse livro é feito nessa filosofia. Pode não ser outono naquela época, mas é outono naquele momento, pela simples transformação que os momentos causam em nossas vidas.
E, como em nossas vidas, as escolhas de Kaero e Shau acontecem. Sabe quando acontece aquilo que você tanto espera? Pois é sempre uma hora em que você sabe que haverá uma separação, pois ao fazer essa escolha você abre mão de todas as outras e tem sempre pessoas e projetos relacionados a isso que, eventualmente, se distanciam. São as novas folhas do Outono dando lugar às antigas na sua árvore.
Kaero é uma musicista que quer seguir seu sonho de se tornar uma pianista reconhecida. Para isso ela determinou uma separação: até o fim do ano irá buscar suas esperanças em outro lugar e por isso evita se apegar muito às pessoas da sua escola. Mas não irei falar muito sobre isso para não dar spoilers.
Vou falar um pouquinho sobre como eu a vi. Na minha imaginação ela parece uma bonequinha de porcelana daquelas que você tem o maior cuidado do mundo pra manusear, saúde frágil, lindinha, com um toque de acidez que, apesar de diferente, ainda se encaixa perfeitamente na personalidade dela.
Agora, Felipe (Shau), o estudante, é aquele relaxado, mas secretamente com medo. Está sempre sob aquela fachada de que tudo vai bem, e é Kaero que o faz esquecer todas essas coisas. Acontece aquele tipo de amor bem adolescente, típico do ensino fundamental/médio que, pessoalmente me deixou muito nostalgica e saudosa. (A própria autora admitiu que o livro foi inspirado na sua primeira desilusão amorosa).
É tudo notável nesse momento do livro: aquele sentimento que você não sabe o que é por uma pessoa, pensar nela o tempo inteiro e até mudar por ela. Assim é o amor de Shau por Kaero. Mas ela também o tem, o que é bem engraçado porque ela não quer admitir até o último momento. É engraçado porque somos assim muitas vezes, até na vida adulta.
O diferencial desse livro é que não é apenas um amor adolescente, a história não termina com Kaero e Felipe apaixonados e pensando no futuro. A história amadurece e se renova. E é bastante realista, pois tanto Kaero quanto Shau tem coisas para resolver em suas vida ao fim do ano em que esse amor nasceu. E nem mesmo o triste e irreversível fato que acontece nesse ano impede deles seguirem com suas escolhas no fim do prazo.
Realmente nossa vida é assim, não importa o que planejamos, em um momento isso irá se realizar e teremos de nos separar de algumas folhinhas da nossa árvore.
Bom, Shau e Kaero adultos são incluídos na leitura facilmente, não há como confundir os diferentes momentos de suas vidas. A relação entre os dois fica "embaçada", há muita tensão entre eles(mais por parte de Shau, diga-se de passagem) no início, mas logo a gente vê isso mudar, logo se nota a renovação dos dois, isso é muito bem explicado por Kaero na adolescencia: "Os momentos da nossa vida são como essas folhas: elas nascem, perduram por um tempo e caem. Porém, outros virão."
Alguns pontos eu gostaria de ressaltar, fiquei um pouco confusa quanto ao lugar que se passa a história no começo, já que o outono é pouco visto no Brasil apenas no sul/sudeste e, na verdade não se inicia em outubro. Não tenho certeza se isso foi sem querer ou feito apenas para ressaltar o outono como conhecemos, mas isso não retira em nada a beleza do livro, devo lembrar.
Acredito que, tanto como Kaero e Shau, a autora também renovou várias de suas folhas no outono enquanto os escrevia, visto que é um trabalho iniciado na sua pré-adolescencia e só agora terminado. E isso se reflete no livro com os maravilhosos diálogos entre Kaero e Shau. Os dois tentando compreender a vida naquela simplicidade complexa que é a adolescência e ainda continuando na vida adulta, tão cheia de consequências.
Outubro é um livro bastante poético. É triste, nostálgico, mas lindo. Assim como aquele poema que você lê e vê que é tão triste, mas te toca tanto e você não consegue explicar porque gostou tanto dele. É por isso que eu recomendo para todos: adolescentes ou adultos. Muitos adolescentes irão se identificar com os personagens e muitos adultos irão se deleitar lembrando dessa época da vida.
Enfim, Outubro é uma história muito linda e, devo dizer, deliciosamente nostálgica acerca das mudanças da vida, sobre como lidar com elas, sobre como crescer e sobre como aprender a perder sem, no entanto, perder a esperança.