Dez razões (possíveis) para a tristeza do pensamento de Steiner
A primeira grande riqueza deste livro é lembrar-nos de algo que todos, volta e meia nos esquecemos, que é o lado negro, o caos, a escuridão, o não ser, a tristeza, a morte, o nada. Este livro vai até essa fronteira. Se for verdade que nós sobre a morte não sabemos nada, ele vai à fronteira do que não conseguimos pensar porque desconhecemos, que aliás, nem sequer somos capazes de dizer o que é realmente por ser tão desconhecido. E trazer este tema à análise só por si já vale a pena. Este livro põe a claro as limitações do nosso pensamento, estas dez tristezas são dez limitações do nosso pensamento que nos entristecem de uma forma inelutável, ficamos arreigados de uma tristeza que faz parte da condição humana e que o autor compara ao ruído de fundo do universo, para se perceber que faz parte de nós desde sempre, desde o Big Bang. E essa é outra lufada de ar fresco, respira-se melhor no frio da tristeza e de algum pessimismo fio de navalha do que na euforia bacocamente otimista do nosso tempo. Mesmo aqueles que se debruçam sobre o caos, passam o tempo debatendo a organização das coisas e esquecem que o caos existe, esquecem que é preciso pensar sobre ele, que o nada está presente na fímbria de tudo e que não o ter presente é um erro que dificulta ou impossibilita mesmo qualquer análise. E Steiner, de forma inteligente, clara, concisa, vem falar disso mesmo, do caos, do não ser, do que esquecemos. E fá-lo, à sua maneira, isto é, como o grande ensaísta que é, de forma clara, incisiva, expondo as ideias de modo direto que só não nos parece fácil porque a sua erudição constante não cessa de chamar a atenção, são imagens sobre matemática, filosofia, astronomia, história, literatura comparada, química, física, e sempre de forma pertinente, interessante, que quase parece espontânea. Depois, é ver a abordagem que faz ao pensamento, o que é o pensamento, como funciona, quais os seus limites. Cada uma das dez conclusões a que chega davam para se escrever um livro porque evidentemente suscitam muito debate. Lê-se como quem bebe um porto de excepção e até nem é mau ser breve, beber mais podia mesmo fazer-nos mal. Não há que melhor se possa dizer de um ensaísta. Claro que no fim de tudo podemos questionar: será que essa tristeza existe?, onde se vê essa tristeza?, quando diz que é inerente ao pensamento, o que significa isso exatamente, onde se vê?, e quem tem consciência dessa tristeza?, não é com certeza o nosso eufórico tempo. O autor não explica. Só afirma que há uma tristeza inerente ao pensamento, de acordo com a perspetiva de Schelling, e compara-a à radiação primitiva. Não sei se é assim. Mas são todas estas dúvidas que nos fazem querer recomeçar a leitura deste texto que é magnífico, não só pelo que diz, mas também pelo que não diz, mal acabamos. Quanto às dez razões apontadas, o melhor é mesmo ler o ensaio.


