Fugindo do simbolismo clássico, O Tarô do Graal busca adaptar o tema do Santo Graal e Cavaleiros Templários à tradição do tarô e seus arquétipos universais: é o que chamamos de tarô transcultural. Um belo trabalho do escritor e pesquisador John Matthews, também criador de outras releituras do tarô, como The Byzantine Tarot, The Cathar Tarot e The Lost Tarot of Nostradamus. O mito do Santo Graal, que trata da busca de um cavaleiro por um objeto misterioso, provou ser um dos mitos mais estáveis de todos os tempos e sua força vem da atração humana pela busca, pelos desafios da jornada.
Neste tarô os arcanos tradicionais são substituídos pelas personagens e narrativas Arthurianas, que contam a lenda do graal, iniciando-se pelo 'Candidato do Santo Graal' (Louco), que parte para sua peregrinação e que procurará vencer a si mesmo, pois, este é o caminho da iniciação para ser aceito na ordem dos templários; e terminando na 'Procissão do Graal' (Mundo), a realização e celebração dos iniciados. Temos aqui reunidos dois dos mistérios mais duradouros e enigmáticos da idade média: o do Santo Graal, outrora descrito como a mais sagrada relíquia da cristandade, e a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, mais conhecidos como os Cavaleiros Templários.
Além da adaptação temática bem estruturada, uma das grandes novidades deste tarô é que suas lâminas formam um painel contínuo quando dispostas lado a lado, criando um cenário em que os eventos dão seguimento um ao outro de maneira que lembra um afresco. Tal técnica remonta algumas das mais belas obras de arte da Idade Média, nas quais o protagonista aparece simultaneamente em diferentes lugares. Muitas das mais incríveis histórias medievais foram escritas dessa maneira, ignorando o tempo linear e descrevendo eventos muito distantes uns dos outros como se houvessem acontecido ao mesmo tempo.
O livro é básico e apresenta uma introdução à história do Graal e dos Cavaleiros Templários, que é contada com mais detalhes, etapa por etapa, através do significado de cada lâmina. Ao final do livro temos tabelas comparativas das cartas com o tarô tradicional e tiragens exclusivas, como “A Disposição do Grão-mestre”, que utiliza os 22 arcanos e foi baseada na planta da igreja dos Templários em Londres, que tem 22 pilares.
O baralho apresenta arte exclusiva, com colagens de temática medieval do artista italiano Giovanni Caselli. Apesar de a beleza e inovação deste tarô, a Madras, responsável pela edição brasileira, fez um trabalho irresponsável na finalização do baralho. As cartas, que na versão europeia e americana são quase quadradas, foram clipadas em formato retangular e tiveram uma margem considerável de suas laterais cortadas, eliminado parcialmente o efeito de mosaico que é a grande novidade deste baralho, fazendo com que as lâminas não se encaixem perfeitamente quando dispostas lado a lado. Além disso, as cartas possuem uma resolução ruim; são feitas com um papel cartão grosseiro para este tipo de material e receberam verniz apenas na frente, deixando o verso áspero. O resultado é um péssimo manuseio, pois, o maço fica muito grosso e as cartas não deslizam, tornando difícil o embaralhamento.
Este trabalho é incrível por sua beleza, inovação e simbolismo. Porém, recomendo a quem for adquiri-lo que compre a versão espanhola, lançada pela editora EDAF sob o título “El Tarot de Los Templarios”. Esta edição traz a melhor qualidade nas cartas, com excelente resolução nas imagens, formato standard com perfeita montagem do painel da jornada e verniz frente e verso.