O livro contém a obra poética completa, constituída de sonetos - 58 poemas longos, agregados mais tarde por outros poemas - do grande poeta paraibano que influenciou de modo decisivo o Modernismo brasileiro. Sua poesia contrariou os padrões de bom gosto, vigentes na camada culta da população brasileira, e o que mais chamou a atenção foi a linguagem, repleta de termos científicos. Os temas fundamentais de sua poesia são podridão, sofrimento e morte. Acompanha o texto um estudo crítico perspicaz de Ferreira Gullar, intitulado "Augusto dos Anjos ou Vida e morte Nordestina". A poesia de Augusto dos Anjos apresenta recursos de estilo que o tornaram um antecipador de alguns traços da poesia moderna brasileira.
Toda a Poesia de Augusto dos Anjos - E um estudo crítico de Ferreira Gullar
Augusto dos Anjos
Augusto dos Anjos, um poeta absolutamente atual
Augusto dos Anjos é considerado nosso único poeta pré-modernista. Augusto é um dos mais originais de todos nossos poetas, e, sem dúvida, o mais exótico. Augusto usa muitas vezes de uma linguagem cientificista; logo em seu extenso poema que inicia o livro “Monólogo de uma sombra”, me deparei com vocábulos de botânica, totalmente inusitados. Neste, como em outros poemas, cheguei a me perceber, debruçado na página, esmiuçando verso por verso, estrofe por estrofe, para depois reler o poema por completo e só assim me dar por satisfeito. Entre tudo que li até hoje de poesia, confesso, que Augusto foi um dos poetas que me fez mais recorrer ao dicionário. No entanto, a temática de Augusto é sempre, extremamente, pessimista (devido a sua enorme influência com a filosofia de Schopenhauer e a poesia de Baudelaire); melancólica, sendo, às vezes, telúrica — outras, etérica; e fala muito frequentemente sobre a morte. Apreciemos este interessante trecho do erudito estudo crítico de Gullar, no qual ele compara a morte para Augusto dos Anjos, com a morte para João Cabral: “É curioso observar como estes dois “poetas da morte” reagem literalmente diante do tema: o universo metafórico de Augusto se alimenta da podridão, dos vermes, da noite, do luto, do carvão, dos signos zodiacais, da superstição; o de João Cabral, da calcinação, da aridez, do ossuário, da calviva — a morte diurna. Os mortos de Augusto apodrecem e fedem; os de João secam, viram cal; Augusto fala de sua própria morte; João, da morte dos outros.” E esta temática da morte, muito presente na obra de Augusto, fez-me lembrar de outro poeta que também muito abordou este tema em sua obra, o modernista Manuel Bandeira, que diz em um de seus versos mais famosos: “Eu faço versos como quem morre.” Devido a tuberculose diagnosticada, aos 18 anos, Bandeira escrevia realmente como quem ia morrer a qualquer momento. E pelo fato de sofrer muitas perdas em sua vida, como a morte de seus país, em uma curta diferença de tempo, isto também influiu para que este tema estivesse imerso em sua obra. Em contrapartida, além de Augusto dos Anjos usar de um vocabulário muito rebuscado, o que mais apreciei em sua poesia, sobretudo, foi a forma, a estética — utilizada não apenas em seus sonetos, quanto em seus poemas longos — amiúde tecida de rimas muito ricas e esmeradas, e uma métrica rigorosamente estruturada, inspirada na poesia parnasiana e simbolista. Seus poemas são muito bem ritmados; raramente se usa de rimas forçadas. Há um ritmo harmonioso e de pura sofisticação. Augusto publicou apenas um livro em vida, entitulado “Eu”; e este poeta que tanto falou sobre a morte, morreu precocemente aos 30 anos de idade, vitima de pneumonia. Depois de sua morte, foram descobertos outros poemas de sua autoria, os quais, junto com os poemas contidos no livro “Eu”, compõe esta obra. Entretanto, hei de dizer que foi uma leitura árdua, em algumas partes, porém muito enriquecedora, edificante e prazeirosa, e que me trouxe um grande retorno vocábulo. A obra de Augusto dos Anjos — este poeta que foi incompreendido e ignorado pela crítica de sua época —, mas muito elogiado e reconhecido, logo depois, pela crítica e pelos poetas modernistas (e sempre célebre entre o público leitor), se mostra absolutamente atual nos dias de hoje. Contudo, só tenho de recomendar a leitura da obra desde nosso grande poeta. 📚😉 E, para finalizar, eis um trecho, que é apenas o início, do já citado poema “Monólogo de uma Sombra” (poderia escolher muitos outros; inclusive poemas, até mesmo, mais belos — que constam no meu histórico de leitura; mas este eu o reli tantas vezes, que não poderia mencionar outro; e recomendo que se procure lê-lo, na integra, para se ter o feeling do que quis dizer...) Segue, enfim: "Sou uma Sombra! Venho de outras eras, Do cosmopolitismo das moneras... Pólipo de recônditas reentrâncias, Larva de caos telúrico, procedo Da escuridão do cósmico segredo, Da substância de todas as substâncias! A simbiose das coisas me equilibra. Em minha ignota mônada, ampla, vibra A alma dos movimentos rotatórios... E é de mim que decorrem, simultâneas, A saúde das forças subterrâneas E a morbidez dos seres ilusórios! Pairando acima dos mundanos tetos, Não conheço o acidente da Senectus — Esta universitária sanguessuga Que produz, sem dispêndio algum de vírus, O amarelecimento do papirus E a miséria anatômica da ruga! (...)” 📚😉
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