A Relíquia
Primeira obra de Eça de Queiroz que leio, apesar de, obviamente, como leitor, já ter ouvido falar muito do autor. Provavelmente meu contato com essa obra teria sido muito mais tardia, não fosse o fato de ser um dos livros obrigatórios para o vestibular da Fuvest. Pois bem, li o livro totalmente às escuras, resistindo à tentação de consultar a sinopse e saber do que se tratava o texto. Foi uma das leituras mais prazerosas que fiz nos últimos tempos. Me adaptei logo à linguagem portuguesa e do século XIX. Num breve resumo, acompanhamos o dissimulado Teodorico Raposo, órfão de pai e mãe, criado pela carola e rica tia D. Maria Patrocínio das Neves, a Titi. Raposo vive uma vida dupla, mulherengo e sedutor, briguento, e diante da tia, santo e devoto, para conseguir sua confiança e herdar toda a fortuna. A tia então o envia a uma peregrinação à Terra Santa, Jerusalém e lhe encomenda uma relíquia (daí o título), um daqueles itens tidos como sagrados, como os pregos da crucificação de Cristo. No meio dessa viagem, passando por Alexandria, ele parte levando consigo um embrulho contendo uma camisola (camisinha) de sua amante inglesa, Mary. Na volta de Jerusalém para Portugal, leva para a tia uma suposta coroa de espinhos usada no martírio de Jesus, em um embrulho, semelhante ao da camisinha de Mary. Em algum momento esses embrulhos são trocados e ele descarta o da coroa de espinhos e leva, por engano, a prova de seu pecado para a tia e acaba perdendo a herança. Na rua, se torna mercador das relíquias que trouxe na bagagem, até o mercado ficar saturado e cair em descrédito. Ao fim, em um "encontro" com Jesus, que se apresenta como nada mais além de sua própria consciência, e não uma divindade, ele percebe toda a hipocrisia daquela vida mentirosa e decide ser sincero, assumindo que não era um religioso, se casa, se torna pai e vira até Comendador da Ordem de Cristo. Ao fim, o autor nos mostra que não houve mudança alguma, e que o velho Teodorico está lá, pensando que na verdade perdeu tudo, não por ser hipócrita, mas por não ter tido a ousadia de mentir mais ainda, levando a tia a crer que aquela era a camisola de Maria Madalena. "...sou neste instante a tua própria consciência refletida fora de ti, no ar e na luz, e tomando ante teus olhos a forma familiar, sob a qual, tu, mal-educado e pouco filosófico, estás habituado a compreender-me" "E tudo isto perdera! Por quê? Porque houve um momento em que faltou esse descarado heroísmo de afirmar, que batendo na Terra com pé forte, ou palidamente elevando os olhos ao Céu - cria, através da universal ilusão, Ciências e Religiões".

