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    Trabalhar cansa (Ás de Colete) -

    Cesare Pavese

    Cosac Naify/7Letras
    2009
    400 páginas
    13h 20m
    ISBN-13: 9788575037591
    Português Brasileiro
    4.1
    42 avaliações
    Leram77Lendo12Querem175Relendo1Abandonos1Resenhas7
    Favoritos4Desejados175Avaliaram42

    Trabalhar cansa é o livro de estreia de Cesare Pavese, considerado um dos grandes escritores italianos e intelectual pertencente ao grupo formado na época da Segunda Guerra por Norberto Bobbio, Leone Ginzburg, Ellio Vittorini e Italo Calvino, entre outros. Com um verso mais narrativo, aberto à prosa da vida cotidiana, Pavese retratou as noites insones das cidades, as figuras de proletários, camponeses, prostitutas, bandidos, bêbados e mendigos vivendo seu drama diário. No contexto da Itália fascista, o poeta marca um momento de virada, renovação e revitalização da poesia italiana, dominada então por tendências mais herméticas e de "poesia pura". Depois dessa primeira experiência, Pavese passou a dedicar-se quase exclusivamente à prosa, como em Diálogos com Leucó.

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    Alexandre Kovacs17/04/2022Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Cesare Pavese - Trabalhar cansa

    Editora Companhia das Letras - 384 Páginas - Tradução e introdução de Maurício Santana Dias - Capa de Victor Burton - Lançamento: 2022. Um importante relançamento da Companhia das Letras que adquiriu parte do acervo da saudosa Editora Cosac Naify, incluindo esta obra que havia sido publicada no Brasil em 2009 como parte da Coleção Ás de Colete, com destaque para a primorosa tradução de Maurício Santana Dias, resultado de sua tese de doutorado: "Lavorare stanca: o projeto impossível de Cesare Pavese", apresentada à Universidade de São Paulo em 2002. Nesta edição bilíngue, foi preservada também a detalhada introdução do tradutor: "A oficina irritada de Cesare Pavese" que explica o contexto de criação dos poemas, assim como o processo de tradução. Os poemas desta antologia, livro de estreia de Cesare Pavese, lançado originalmente em 1936 e publicado em sua forma definitiva sete anos depois, foram criados no período de 1930 a 1940, com inspiração na região de Piemonte, norte da Itália. Os versos expressam uma forte sensualidade, narrando o cotidiano rural e urbano de gente simples como prostitutas, trabalhadores do campo e bêbados, aproximando dessa forma a arte da vida, uma tentativa de romper com a alienação do movimento modernista da época, formado por poetas como Giuseppe Ungaretti e Eugenio Montale. No entanto, como bem destacado na introdução: "[...] ao contrário do que possa parecer à primeira vista, os poemas de Lavorare stanca não são simples: longe de serem obra de um poeta 'inspirado', 'espontâneo', 'ingênuo' e outros adjetivos do gênero, seus textos são o produto de um esforço intelectual reflexivo e concentrado." Encontramos um bom exemplo do poema-narrativo de Cesare Pavese em "Os mares do sul", primeiro e mais longo poema desta antologia, que pode ter sido considerado pouco "poético" na época, dominada pelo hermetismo. A definição de Maurício Santana Dias é novamente precisa: "Moderno sem aderir às experiências mais radicais da modernidade, clássico sem evidentemente participar da Grécia antiga ou da Itália de Dante, consciente dessas antinomias insolúveis e vivendo o período histórico mais conturbado do século XX, o entreguerras, Pavese se propôs o projeto impossível de construir uma obra literária que condenasse tudo isso de maneira equilibrada." Os mares do sul (I mari del Sud) Caminhamos à tarde na encosta de um monte, em silêncio. Na sonbra do lento crepúsculo o meu primo é um gigante vestido de branco, que se move tranquilo, queimado no rosto, taciturno, Calar é a virtude da gente. Algum velho ancestral se sentiu com certeza bem só – ave rara entre tolos ou pobre maluco – para ensinar aos seus tanto silêncio. Nesta noite meu primo falou. Perguntou-me se eu iria com ele: do pico se vê nessas noites serenas brilhar o farol distante de Turim. "Tu, que vives em Turim..." disse ele, "...tens razão. A vida só é vivida distante de sua casa: se aproveita e se goza e aí, quando se volta, aos quarenta como eu, está tudo renovado. As Langas não se perdem". Ele disse isso tudo e não fala italiano, operando sem pressa o dialeto que, como pedras desta mesma colina, é tão áspero que vinte anos de línguas e mares diversos nem sequer o arranharam. E ele sobe uma trilha com o olhar recolhido que vi, em criança, em rostos camponeses já cansados. Vinte anos circulou por esse mundo. Foi embora eu ainda menino, no colo das moças, e o deram por morto. Mulheres havia que o citavam, às vezes, como em fábulas, mas os homens, circunspectos, o esqueceram. Num inverno chegou a meu pai, que já havia morrido, um postal com um selo em cor verde, de barcos num porto e desejos de boa vindima. Foi enorme o espanto, e o menino crescido explicou num rompante que o cartão procedia de uma ilha chamada Tasmânia rodeada de um mar todo azul, com cruéis tubarões, no Pacífico, ao sul da Austrália. E adiantou que decerto o seu primo pescava pérolas. E arrancou o selo. Todos deram o seu parecer, concluindo que, se ainda não morrera, morreria. Muito tempo passou e esqueceram-no todos. Quanto tempo passou desde quando eu brincava de pirata malásio! Desde a última vez em que fui tomar banho num ponto arriscado e segui um parceiro de jogos numa árvore estalando um dos galhos, rachando a cabeça de um rival e apanhando por isso, quanta vida passou. Outros dias e jogos, outros choques no sangue enfrentando rivais mais esquivos: ideias e sonhos. A cidade ensinou-me infinitos temores: multidões, uma rua me sobressaltaram, uma ideia, outras vezes, flagrada num rosto. Sinto ainda nos olhos a luz traiçoeira dos milhares de postes nas grandes calçadas. O meu primo voltou, terminada a guerra, um gigante entre poucos. E tinha dinheiro. Os parentes diziam baixinho: "Em um ano, se tanto, já torrou tudo e retorna as viagens. É assim que morrem os desesperados". Ele tem uma cara obstinada. Comprou um terreno na aldeia e ergueu uma sólida garagem que ostentava, brilhante, uma bomba para a gasolina e na ponte, bem grande, na curva, um cartaz chamativo. Contratou um mecânico que recebia o dinheiro e foi passear pelas Langas, fumando. Entretanto casara, na aldeia. Pegou uma garota loura e delgada como as estrangeiras que decerto encontrara algum dia no mundo. Mas saía sozinho. Vestido de branco, com as mãos para trás e queimado no rosto, de manhã percorria as tais feiras com ar displicente e comprava cavalos. Depois me explicou, falidos os projetos, que o seu plano consistira em vender deste vale animais de transporte e fazer com que a gente comprasse motores. "Mas a besta", dizia, "mais besta de todas fui eu mesmo ao pensar. Deveria saber que aqui bois e pessoas são todos iguais." Caminhamos há mais de meia hora. Está próximo o pico, sempre cresce ao redor o zunido e o chiado do vento. O meu primo parou de repente e me disse: "Neste ano eu vou pôr numa placa: Santo Stefano sempre foi o primeiro nos festejos deste vale do Belbo – e que se danem os de Canelli". E então retoma a trilha. Um perfume de terra e de vento nos cobre no escuro, umas luzes ao longe: currais, automóveis cujo som mal se escuta; e eu penso na força que me trouxe este homem, arrancando-o ao mar, às distâncias da terra, ao silêncio que dura. O meu primo não fala de viagens já feitas. Diz a seco que esteve em tal ponto e em tal outro e volta aos seus motores. Só um sonho permanece em seu sangue: cruzou certo dia, de foguista num barco de pesca holandês, o Cetáceo, viu lançarem arpões que voavam pesados ao sol, viu baleias fugindo no mei de espumas de sangue e encalçá-las no lance das caudas, litando com a lança. Comentava-me às vezes. Mas, quando lhe digo que ele é um homem de sorte, que viu as auroras sobre as ilhas mais belas que há na Terra, ele ri na lembrança e responde que quando o sol vinha a manhã já era velha para eles. Sobre o autor: Cesare Pavese nasceu em 1908, em Santo Stefano Belbo, na Itália, e morreu em 1950, em Turim. Foi preso na Calábria pelo regime fascista. Trabalhou na editora Einaudi, onde alcançou o posto de diretor editorial. Entre seus livros, destacam-se "Diálogos com Leucó", "A lua e as fogueiras" e "O belo verão".

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    Cesare Pavese

    Cesare Pavese (1908–1950) nasceu na fazenda de férias de sua família no país fora de Turim, no norte da Itália. Ele se formou na Universidade de Turim, onde escreveu uma tese sobre Walt Whitman, iniciando um compromisso contínuo com a literatura em inglês que levaria a suas influentes traduções de Moby-Dick, um retrato do artista quando jovem, três anos. Vidas e Moll Flanders, entre outras obras. Exilado brevemente pelo regime fascista na Calábria em 1935, Pavese voltou a Turim para trabalhar na nova editora de Giulio Einaudi, onde acabou se tornando diretor editorial. Em 1936, ele publicou um livro de poemas, Lavorare stanca (Hard Labor), e depois passou a escrever romances e contos. Pavese ganhou o Prêmio Strega de ficção, o prêmio mais prestigioso da Itália, por A lua e as fogueiras em 1950. Mais tarde no mesmo ano, após um breve caso com uma atriz americana, ele se suicidou. As publicações póstumas de Pavese incluem seus diários célebres, ensaios sobre a literatura americana e uma segunda coleção de poemas, intitulada Ver a morte e avrà i tuoi occhi (a morte virá e terá seus olhos).

    27 Livros
    14 Seguidores
    Piemonte/Cuneo, Itália

    Cesare Pavese