Clay Shirky, um dos mais influentes pensadores da web, abre seu livro contando uma história simples: numa tarde de 2006 uma mulher perdeu um celular no banco de trás de um táxi. O telefone foi encontrado, a identidade de quem estava de posse do aparelho foi revelada, mas isso não garantiu a sua devolução. Só depois que uma página na internet contando o caso ganhou a atenção da mídia e o novo "dono" do aparelho foi pressionado por milhares de empenhados adeptos, o caso foi solucionado. A história exemplifica bem a revolução que as tecnologias de rede social vêm desempenhando. Pela primeira vez na história, os indivíduos têm nas mãos os meios para se organizar sem a intermediação de empresas, partidos e outras instituições, compartilhando informações, produzindo de maneira colaborativa e até planejando ações coletivas de grande porte. Mas Lá vem todo mundo não chega apenas para celebrar os benefícios dessa transformação, Shirky apresenta os dilemas que emergem quando os grupos deixam de ser controlados por organizações. Se as novas ferramentas virtuais tornaram possível que, na Bielo-Rússia, por exemplo, eclodisse um protesto político que o governo foi impotente para deter, também viabilizam uma comunicação mais ágil entre redes terroristas. Estamos diante de um panorama que transformou o comportamento dos homens, e o autor, além de analisar os pontos positivos e negativos desse cenário, mostra como é possível participar ativamente de um dos momentos mais férteis da história humana.
Lá vem todo mundo - O poder de organizar sem organizações
Clay Shirky
Lá vem
O livro é deveras interessante e um tanto reconfortante (não pendendo para a utopia). Fala-nos de grandes projetos e realizações que foram executadas - com sucesso - por grupos de pessoas que tinham o amor como cimento e elemento propulsor. Shirky apresenta-nos um novo contexto, uma sociedade que consegue, através da colaboração, do compartilhamento e da participação realizar coisas como o Linux e a Wikipédia, mas também, coisas simples como recuperar um celular. Mostra-nos que grandes instituições gastam tempo e dinheiro gerindo-se. Ou seja, perde-se tempo tentando não perder tempo. O fato de decidir quem manda em quem, quem faz o que e pra quem leva uma boa parte dos recursos dessas instituições. Já projetos com conexões frouxas, onde não um metas rígidas nem rotinas e muito menos hierarquia, não há gasto algum para gerir os recursos humanos, pois estes mesmos se organizam. Claro, é preciso evitar o erro e a perda de dinheiro, por isso, limita-se tanto o trabalho em instituições com conexões sólidas, pois esta não se pode dar ao luxo do risco. Já as que possuem conexões frouxas podem errar à vontade, pois o erro não significa perda de dinheiro, e quanto mais se erra, maiores são as chances do acerto. O novo contexto do jornalismo e da fotografia é amplamente debatido pelo autor, pois todo mundo é um veículo de comunicação. Abordando a polêmica do "fim do jornalismo tradicional" ele pergunta-se "quem é jornalista?". A discussão começa com alguns casos de jornalistas que foram presos por não entregarem suas fontes, onde grupos reivindicavam que "o jornalista" deveria ser protegido por lei e ter direito ao sigilo. Mas aí entra outra questão: "quem tem esse direito?" Se considerarmos somente profissionais que atuem em meios de comunicação tradicionais, excluiremos jornalistas que escrevem para blogs e possuem mais leitores que muitos jornais juntos. Aí está o paradoxo da profissão. Em uma época de proliferação de ferramentas, de acesso à rede e de perpetuação do amadorismo (aquele que trabalha por amor), as linhas que separam os profissionais dos não-profissionais cada dia torna-se mais tênue. Já sobre os fotógrafos, o autor comenta: “a ameaça aos fotógrafos profissionais veio de uma mudança não apenas na maneira como as fotografias eram criadas, mas na maneira como eram distribuídas” (SHIRKY, 2012, p. 67). Uma obra que também aborda o contexto do compartilhamento de informações, do conteúdo gerado por usuário e das diversas ações sociais que foram possibilitadas pelas ferramentas sociais. O que é bom lembrar, através da palavras do autor, é que, apesar de vivermos um momento "mais generoso", não podemos esquecer que o ser humano é ruim, se tiver a chance. Qualquer projeto tem sabotadores à espreita. A diferença é que a cada dia há mais pessoas defendendo projetos do que destruindo-os. Mas não nos enganemos: somos maus. Bela leitura.
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