Estou acostumado a ler séries policiais fora de ordem. Geralmente os volumes são independentes e a leitura, dessa forma, não é prejudicada. Mas não sei se posso dizer o mesmo para o gênero do romance histórico. Tendo apenas assistido o famoso filme baseado no primeiro livro da aclamada série Mestre dos Mares, de Patrick O'Brian, peguei a sexta aventura dos carismáticos Jack Aubrey e Stephen Maturin para ler. E apesar de parecer que o autor escreveu todos os capítulos como se fossem parte de um único tomo gigante, coisa que me desagrada nas Crônicas do Gelo e Fogo de George R. R. Martin, por exemplo, senti-me logo em casa, o que para os personagens quer dizer o mundo.
Das Índias Orientais a África do Sul, do Brasil - com direito a uma citação a minha cidade natal - a Boston, os heróis representam a Marinha Real Britânica nos idos 1800. A situação política entre os Estados Unidos, Inglaterra e França acrescenta um elemento de espionagem, muito bem-vindo para o leitor aqui fora do universo nerd náutico. Embora os termos marítimos me deram menos trabalho do que os nomes das espécies estudadas pelo Doutor Maturin, que é uma mistura de Darwin com James Bond! O que já faz dele meu personagem favorito da história. Inclusive, uma passagem dela me remeteu imediatamente a cena em que 007 mata a sangue frio um adversário em Dr. No (eu falei que eu era outro tipo de nerd).
Em terra ou em mar aberto, a escrita de O'Brian é absorvente. Ele constrói um mundo completamente imersivo povoado por personagens humanos e não figuras planas em roupas de época. O "costume imemorial do serviço" arraigado do capitão traz um charme cavalheiresco e um humor particular que não pude deixar de associar ao próprio autor. Do tipo que realmente não se encontra mais. O código de honra na guerra, em que há admiração e respeito entre inimigos, não tem reflexo em nenhuma interação contemporânea, o que deixa tudo ainda mais irresistível.
O terceiro ato, embora apoteótico, foi o que menos gostei. Por principalmente tê-lo antecipado há algumas léguas, mas também por não ser fechadinho como eu gosto nos livros que leio de continuação. Dito isso, não me permito reclamar de nada com um tiro de canhão na última página. Infringe meu código de costume imemorial do leitor.