Quando eu me proponho comentar minhas impressões sobre uma obra lida, vou escrevendo o que me vem na cabeça, por isso, estou pressentindo que não vai ser fácil separar alhos de bugalhos. Digo isso porque JLP me espanta: quem o vê todo tatuado e cheio de piercing ( por falar nisso ele faz uma bela abordagem sobre essa sua condição na crônica intitulada "Debaixo da roupa, estamos todos nus" que me fez corar: não pela nudez em si, mas por ter constatado que, apesar dos meus esforços, ainda carrego resquícios de preconceitos ) não é capaz de imaginar o quanto esse escritor tem a sensibilidade aflorada e o quão profundas são suas raízes familiares . Aos seus leitores não passa despercebido a recorrente abordagem da temática de sua família, ou do lugarejo onde naceu em seus livros e, "Livro", não foge à regra, haja vista que o pano de fundo do romance : a emigração portuguesa para a França na década de 60 também faz parte da história familiar de JLP, pois seu pais também foram atrás do "Eldorado".
"Livro " trata-se de um livro do tipo 2 em 01.
O livro 1, supostamente, dá ênfase a história de amor de Adelaide e Idílio - um casal a la "A Gata Borralheira e o Vagabundo" só que, aos olhos da tia Lubélia, estava mais para "A Dama e o Vagabundo" , um dos motivos que a leva condenar a jovem ao exílio na França - para ser mais justa com Lúbelia, devo dizer que ela conduz a jovem Adelaide ao mesmo destino dos portugueses que, ávidos por comida e liberdade, deixavam Portugal rumo à França esperançosos de encontraram melhores condições de vida.
Mas por que supostamente? Porque para mim o que falou mais alto foram os temas recorrentes nos livros de JLP: A SOLIDÃO E O ABANDONO ( logo no início um menino é abandonado pela mãe ) , A MISÉRIA MORAL FÍSICA E EMOCIONAL ( não seria essa a condição de uma menina que sofria abusos do pai?) A IMPORTÃNCIA DO PAPEL DO PAI ( notório na figura de Josué) e temas que muito me encantaram, pois eles têm um valor inestimável para mim: A AMIZADE E A CUMPLICIDADE ( a relação de amizade e cumplicidade entre Idílio, Galopim e Cosme foi, para mim, o ponto alto do romance)
Já no livro 2, encontramos "LIVRO" , o qual não se trata uma sopa de letrinhas como a capa possa sugerir. LIVRO é uma surpresa que JLP ( um pouco sarcástico, ousado e vingativo, talvez) reserva ao leitor.
Claro que JLP não perderia seu tempo com um livro medíocre, mas então por que tão somente 4 estrelas ( embora 4 estrelas não seja a avaliação de um livro medíocre)? Porque eu senti falta da atmosfera que tomou conta de mim quando li Nenhum Olhar ( mesmo diante da minha falta de entendimento), quando li Morreste-me, e até quando, li o truculento Uma Casa na Escuridão. Senti falta da " auréola" de poesia que me envolveu todinha durante as leituras, e que me levou a concluir que JLP é sinônimo de poesia, e que poesia é sinônimo de JLP.
Parece que eu estava certa: no meu comentário improvisado acabei, de fato. confundindo alhos com bugalhos, só espero não ter chegado ao ponto de confundir os nomes das personagens.