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    Variações em vermelho - e outros casos de Daniel Hernandez

    Rodolfo Walsh

    Editora 34
    2012
    240 páginas
    8h 0m
    ISBN-13: 9788573264821
    Português Brasileiro
    4.1
    36 avaliações
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    Favoritos3Desejados55Avaliaram36

    Reunindo cinco contos policiais e um ensaio de Rodolfo Walsh, Variações em vermelho apresenta ao leitor brasileiro um lado menos conhecido, mas fundamental, de um dos maiores escritores argentinos do século XX. Na trilha de Sherlock Holmes, Borges e Bioy Casares, Walsh introduz na história da literatura um detetive surpreendente: Daniel Hernández, um revisor de livros que usa sua atenção aos detalhes para decifrar os mais incríveis crimes e enigmas.

    Resenhas (1)Ver mais
    Inácio França picture
    Inácio França05/03/2012Resenhou um livro
    3 (Bom)

    Variações em vermelho

    (texto publicado originalmente no www.caotico.com.br) Ele trabalhava revisando textos alheios, talvez a mais depreciada tarefa do universo dos livros, enfurnado numa editora entre provas da gráfica, manuscritos originais e modelos para capas. A rotina profissional não causava arrepios e o dinheiro era contado, mas em casa não faltavam fortes emoções. Recém-casado, sua primeira filha havia acabado de nascer. Nada disso foi capaz de sufocar sua gana de escrever. E o lance de gênio de Rodolfo Walsh foi buscar inspiração no cotidiano de revisor para criar Daniel Hernández, funcionário de uma editora que ajudava a polícia a resolver crimes misteriosos usando como arma a linguagem. O personagem logo se tornou bastante popular entre os muitos leitores da tradicional literatura policial argentina. Variações em vermelho, lançado em seu País no início dos anos 50 e há poucas semanas no Brasil pela Editora 34, inclui as novelas que lançaram o personagem, além de um curioso miniconto e um ensaio no qual o autor apresenta sua versão a respeito da história desse gênero. Tal qual os autores clássicos da literatura policial, o crime e a investigação serve menos como entretenimento e mais como pano de fundo para tratar das tensões , desejos e angústia humanas. É assim nas obras de Simenon e de Hammet, para ficar apenas com dois exemplos. A primeira novela do volume, ‘A aventura das provas de prelo’, é também a melhor de todas, a mais intricada e surpreendente. Neste texto, no qual Daniel Hernández faz sua primeira investigação, os mesmos fatos justificam três soluções diferentes e excludentes para o mesmo crime. O autor elabora argumentos convincentes para as três hipóteses, defendidas por três investigadores diferentes. A grande sacada de Walsh é esclarecer o caso usando as provas de prelo (material gráfico já diagramado e ainda não impresso definitivamente) do livro que havia sido traduzido pela vítima. Nas demais histórias, o argentino mantém a pegada com tramas originais e bem estruturadas. Ele também inova ao interagir com o leitor, alertando no prefácio que as pistas e informações para solucionar os casos antecipadamente estão em determinadas páginas. Para Rodolfo Walsh, a literatura era mais importante que o clima de suspense. Ele não era “dono” do desfecho da trama e fazia questão de compartilhar seu poder de criador com os leitores. Para Walsh, notas de rodapé, apêndices, prefácios, reprodução de documentos fictícios e mapas de locais imaginários rascunhados também eram literatura. Tudo isso faz parte das histórias. Dá a impressão que o homem ampliou o conceito de romance. O problema é que há um recurso que se repete sempre: o investigador anuncia esclarecimento do caso e explica o passo-a-passo do seu raciocínio em uma reunião, com a presença de todos os envolvidos no crime, seja policiais, testemunhas e suspeitos. Uma vez dá para passar, mas a repetição torna o desenlace previsível e carece de verossimilhança. A explicação para o uso abusivo desse recurso está na forma como as novelas foram publicadas originalmente. O leitor lia um texto hoje numa revista e só iria ler os próximos meses depois em outra edição. Depois que tudo está junto em um livro e é lido em sequência, a coisa não funciona. Um leitor mais cético talvez questione a verossimilhança e credibilidade dos métodos do investigador amador, mas essas dúvidas são superadas com a constatação que Daniel Hernández é o alter-ego de Walsh, ele mesmo um revisor que havia acabado de deixar a função após ser promovido para tradutor. E foi usando a linguagem que, apenas três anos depois de escrever essas novelas, o autor em carne e osso desvendou 0 massacre de operários pelos militares a serviço da ditadura do almirante Aramburu. O resultado de suas investigações se transformou no lendário livro Operação Massacre. No início dos anos 60, trabalhando voluntariamente com outros escritores para montar a imprensa oficial da Cuba de Fidel Castro, Walsh decodificou uma mensagem que permitiu descobrir que os Estados Unidos estavam preparando a invasão à Baía dos Porcos. Ou seja, as habilidades de Daniel Hernández foram tomadas emprestadas do próprio Walsh, apesar das iniciais do nome do personagem serem uma provável homenagem a Dashiel Hammet, o primeiro nome do detetive ser uma referência ao Daniel da Bíblia, tido por Walsh como o primeiro detetive da literatura, e Sherlock Holmes merecer várias citações desde o título do livro.

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    Rodolfo Jorge Walsh profile picture

    Rodolfo Jorge Walsh

    Rodolfo Jorge Walsh, considerado o fundador do jornalismo investigativo na Argentina, nasceu em 1927 em uma fazenda na localidade de Lamarque da Província de Río Negro, Argentina. Durante muito tempo houve uma confusão sobre local de nascimento de Walsh, devido à mudança de nome de Colonia Nueva del Pueblo de Choele Choel a sua denominação atual de Lamarque, em 1942. Em 1941 ele se mudou para Buenos Aires para estudar na escola secundária. Após a formatura, começou a estudar filosofia, mas abandonou a escola e assumiu uma gama diversificada de emprego: empregado de escritório numa fábrica de processamento de carne, vendedor de antiguidades e lavador de janelas. Aos 18 anos começou a trabalhar como revisor de um jornal. De origem humilde, traçou uma longa e distinta carreira no jornalismo, que continuou até seu assassinato em 1977. Seu corpo jamais foi encontrado, por isso ele é considerado desaparecido político. Vida e obra de Rodolfo Walsh (1927-77) se misturam à conturbada história argentina no século 20, do peronismo direitista dos anos 50 ao kirchnerismo peronista de hoje, passando pela esquerda que reivindicava a herança de Perón nos anos 70. Inventor do novo jornalismo, o autor tem reportagem e livro de contos lançados no Brasil.

    11 Livros
    6 Seguidores
    Patagônia , Argentina

    Rodolfo Jorge Walsh