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    Angústia -

    Graciliano Ramos

    Record
    2003
    336 páginas
    11h 12m
    ISBN-10: 8501067121
    Português Brasileiro
    4
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    Marco do romance moderno brasileiro, "Angústia" é a expressão máxima do embate entre a subjetividade do escritor e a realidade objetiva. Esta, sempre opressora, se revela na figura de um pequeno funcionário e sua consciência de condenado à mediocridade. A obra foi originalmente publicada no início de agosto de 1936, em circunstâncias muitíssimo incomuns na história da literatura brasileira. Graciliano Ramos, trazido de Maceió no porão de um navio, achava-se preso no Rio de Janeiro, sem culpa formada e sem ser ouvido uma única vez para se defender da acusação pelo qual estava atrás das grades: a sus¬peita de ser um militante comunista. "Angústia" não se distingue somente por nos evidenciar, a cada parágrafo, a capacidade de observação do autor, o romance também nos chama a atenção pelas qualidades literárias que fizeram dele uma obra única no momento de sua publicação. De origem rural, como quase todo o elenco de personagens do romance, Luís da Silva --protagonista do romance-- integra-se com dificuldade à vida urbana. Resiste às suas exigências, mas de vez em quando descobre o quanto há de armadilhas no novo modo de vida. A pobreza o obriga a morar em uma pensão de terceira categoria, e como o salário de ajudante administrativo em uma repartição pública não basta para cobrir as despesas, obriga-se a vender seu pouco talento literário sob a forma de artigos destinados a um jornal, cujo programa é o elogio cotidiano dos políticos da situação.

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    Resenhas (1247)Ver mais
    Fabio Shiva picture
    Fabio Shiva01/09/2021Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Profético e... angustiante!

    Todo livro tem a sua hora e vez de ser lido. Às vezes uma leitura não nos agrada ou, pior ainda, não nos diz nada. Mas a culpa não necessariamente é do livro, nem nossa: simplesmente não era o momento certo e propício de ler aquele texto específico. Pensei muito nisso ao finalmente engrenar na leitura dessa impressionante “Angústia” de Graciliano Ramos, que terminei com a consciência de estar diante de uma das obras-primas de nossa Literatura. Contudo tentei ler o livro pela primeira vez em 2017, e a leitura se arrastou até estagnar na página 38. Dessa vez, no entanto, li quase que prendendo a respiração, de tanto suspense, e tive que me conter para não grifar todas as páginas. O que me trouxe uma inevitável pergunta: uma vez que o livro continuava o mesmo, o que mudou em mim e no mundo entre uma leitura e outra? É certo que nesse período relativamente curto de 4 anos mudou muita coisa. Em 2017, por exemplo, Jair Bolsonaro era apenas mais um dos “malucos” que infestam a política brasileira, potencialmente perigoso, sim, mas acima de tudo inexpressivo... Quadro bem diferente é o que tenho diante de mim nesse 2021, quando infelizmente já me acostumei a ver tantos parentes e pessoas que eu admirava defendendo as ideias abomináveis e absurdas desse mesmo “maluco”, hoje alçado à presidência do Brasil e promovendo tamanho despropósito de malefícios que as gerações futuras terão dificuldade em calcular... Pois imaginem o meu espanto e surpresa ao encontrar nesse romance de 1936 a figura de Julião Tavares, que bem poderia ser descrito como o maior bolsominion da Literatura Brasileira: “Julião Tavares não tinha nenhuma das qualidades que lhe atribuíam. Era um sujeito gordo, vermelho, risonho, patriota, falador e escrevedor.” “Esse Julião, literato e bacharel, filho de um deles, tinha os dentes miúdos, afiados, e devia ser um rato, como o pai. Reacionário e católico. – Por disciplina, entende? Considero a religião um sustentáculo da ordem, uma necessidade social. – Se o senhor permite... E divergi dele, porque o achei horrivelmente antipático.” “O que não achava certo era ouvir Julião Tavares todos os dias afirmar, em linguagem pulha, que o Brasil é um mundo, os poetas alagoanos uns poetas enormes e Tavares pai, chefe da firma Tavares & Cia., um talento notável, porque juntou dinheiro. Essas coisas a gente diz no jornal, e nenhuma pessoa medianamente sensata liga importância a elas. Mas na sala de jantar, fumando, de perna trançada, é falta de vergonha. Francamente, é falta de vergonha.” “E um cachorro daquele fazia versos, era poeta.” Ler sobre o cinismo cheio de empáfia de Julião Tavares me ajudou a compreender atitudes até então inexplicáveis de tantos parentes e ex-amigos. E principalmente, me ajudou a perceber como Bolsonaro é apenas o catalisador dessas sombras e imundícies psicológicas que atendem pelo nome de “bolsonarismo” e que, é forçoso reconhecer, estão entranhadas como piche em nossa identidade nacional. Tomar consciência disso é renovar a confiança no processo de cura que vem a reboque do próprio bolsonarismo: só podemos curar aquilo que somos capazes de reconhecer como doença. E por isso, dentre tantos outros motivos, dou graças à Literatura! Para não deixar dúvida de que os atuais problemas do Brasil (e do mundo) já estavam ativos há muito tempo, vejam que impressionante descrição Graciliano Ramos nos traz do fenômeno das Fake News, décadas antes da Internet e antes até mesmo da televisão: “Até ali, àquela hora, surgia o nome do vizinho. O que mais me aborrecia era não saber se as pessoas que falavam dele acreditavam na história suja. Enchia-me de raiva por não conseguir me livrar dos fuxicos. Desprezava involuntariamente o desgraçado Lobisomem. Se aquilo fosse verdade? Não tinha verossimilhança, era aleive, disparate. Mas tanta gente repetindo as mesmas palavras.... E casos iguais já se tinham visto.” Como um toque de ironia involuntária, até o terraplanismo é sugerido no texto de Graciliano: “As aparências mentem. A terra não é redonda?” Preciso dizer que esse assunto todo é nota de rodapé em “Angústia”, que trata de questões muito outras e mais amplas. Preciso mencionar, sobre a estrutura geral da trama e dos personagens, um recurso que achei genial para expressar a opressiva sensação de apequenamento, que acompanha toda a narrativa. O avô do protagonista-narrador chamava-se Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva, era realizador de façanhas boas e más. Já com o pai do protagonista começa o reducionismo: “E meu pai, reduzido a Camilo Pereira da Silva, ficava dias inteiros manzanzando numa rede.” À redução na extensão do nome acompanha uma diminuição na própria dignidade humana do personagem. E daí calcule-se o efeito quando descobrimos que o narrador da história chama-se simplesmente Luís da Silva! É especialmente relevante o arqui-inimigo de Luís ser o já mencionado Julião Tavares, que como ele só tem dois nomes, mas traz um aumentativo em seu nome de batismo que o torna psicologicamente maior que Luís. Se eu fosse falar tudo o que esse livro me fez pensar, teria que escrever outro livro. Por isso me limito a destacar ainda as pérolas ásperas que a leitura de Graciliano proporciona para aqueles que amam ler e escrever: “Passo diante de uma livraria, olho com desgosto as vitrinas, tenho a impressão de que se acham ali pessoas, exibindo títulos e preços nos rostos, vendendo-se. É uma espécie de prostituição.” “Distraía-me com leituras inúteis. Quando me caía nas mãos uma obra ordinária, ficava contentíssimo: – Ora, muito bem. Isto é tão ruim que eu, com trabalho, poderia fazer coisa igual. Os livros idiotas animam a gente. Se não fossem eles, nem sei quem se atreveria a começar.” “– Fulano é bom escritor, Luís? Quando não conheço Fulano, respondo sempre: – É uma besta. E os rapazes acreditam.” “A linguagem escrita é uma safadeza que vocês inventaram para enganar a humanidade, em negócios ou como mentiras.” “Esforçava-me por me dedicar às minhas ocupações cacetes: (...) ler romances e arranjar uma opinião sobre eles. Não há maçada pior. A princípio a gente lê por gosto. Mas quando aquilo se torna obrigação e é preciso o sujeito dizer se a coisa é boa ou não, não há livro que não seja um estrupício.” “O que eu precisava era ler um romance fantástico, um romance besta, em que os homens e as mulheres fossem criações absurdas, não andassem magoando-se, traindo-se. Histórias fáceis, sem almas complicadas. Infelizmente essas leituras já não me comovem.” Ainda nesse tema da literatura, é incrivelmente profética essa passagem em que Luís fica obcecado pela ideia de ser preso e escrever um livro na cadeia: “Faria um livro na prisão. Amarelo, papudo, faria um grande livro, que seria traduzido e circularia em muitos países. Escrevê-lo-ia a lápis, em papel de embrulho, nas margens de jornais velhos.” “A ideia do livro aparecia com regularidade. Tentei afastá-la, porque realmente era absurdo escrever um livro numa rede, numa esteira, nas pedras cobertas de lama, pus, escarro e sangue. (...) O livro só poderia ser escrito na prisão.” Esses trechos são duplamente impressionantes, quando sabemos que “Angústia” foi publicado quando Graciliano Ramos de fato havia sido preso pelo governo de Getúlio Vargas, pouco antes da implantação a Ditadura do Estado Novo, e que essa experiência na prisão acabou gerando talvez a maior obra de Graciliano Ramos, “Memórias do Cárcere” (https://youtu.be/Qz2iZs7cea4). Encerro essa longa resenha com mais algumas citações poderosas da pena desse grande autor brasileiro, com gratidão e orgulho por ter nascido no mesmo país que ele: “Esta vida monótona, agarrada à banca das nove horas ao meio-dia e das duas às cinco, é estúpida. Vida de sururu.” “Quando a realidade me entra pelos olhos, o meu pequeno mundo desaba.” “Para que um homem discutir, se não é obrigado a isso?” “Como certos acontecimentos insignificantes tomam vulto, perturbam a gente! Vamos andando sem nada ver. O mundo é empastado e nevoento. Súbito uma coisa entre mil nos desperta a atenção e nos acompanha. Não sei se com os outros se dá o mesmo. Comigo é assim.” “Movemo-nos como peças de um relógio cansado. As nossas rodas velhas, de dentes gastos, entrosam-se mal a outras rodas velhas, de dentes gastos.” E viva Graciliano Ramos! https://comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/2021/09/angustia-graciliano-ramos.html

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    Graciliano Ramos de Oliveira

    Graciliano Ramos de Oliveira (Quebrangulo, 27 de outubro de 1892 — Rio de Janeiro, 20 de março de 1953) foi um romancista, cronista, contista, jornalista, político e memorialista brasileiro do século XX,autor de Vidas Secas. Graciliano Ramos viveu os primeiros anos em diversas cidades do Nordeste brasileiro. Terminando o segundo grau em Maceió, seguiu para o Rio de Janeiro, onde passou um tempo trabalhando como jornalista. Voltou para o Nordeste em setembro de 1915, fixando-se junto ao pai, que era comerciante em Palmeira dos Índios, Alagoas. Neste mesmo ano casou-se com Maria Augusta de Barros, que morreu em 1920, deixando-lhe quatro filhos. Foi eleito prefeito de Palmeira dos Índios em 1927, tomando posse no ano seguinte. Ficou no cargo por dois anos, renunciando a 10 de abril de 1930. Segundo uma das auto-descrições, "(...) Quando prefeito de uma cidade do interior, soltava os presos para construírem estradas." Os relatórios da prefeitura que escreveu nesse período chamaram a atenção de Augusto Schmidt, editor carioca que o animou a publicar Caetés (1933). Entre 1930 e 1936 viveu em Maceió, trabalhando como diretor da Imprensa Oficial e diretor da Instrução Pública do estado. Em 1934 havia publicado São Bernardo, e quando se preparava para publicar o próximo livro, foi preso em decorrência do pânico insuflado por Getúlio Vargas após a Intentona Comunista de 1935. Com ajuda de amigos, entre os quais José Lins do Rego, consegue publicar Angústia (1936), considerada por muitos críticos como sua melhor obra. Foi libertado em janeiro de 1937. As experiências da cadeia, entretanto, ficariam gravadas em uma obra publicada postumamente, Memórias do Cárcere (1953), relato franco dos desmandos e incoerências da ditadura a que estava submetido o Brasil. Em 1938 publicou Vidas Secas. Em seguida estabeleceu-se no Rio de Janeiro, como inspetor federal de ensino. Em 1945 ingressou no antigo Partido Comunista do Brasil - PCB (que nos anos sessenta dividiu-se em Partido Comunista Brasileiro - PCB - e Partido Comunista do Brasil - PCdoB), de orientação soviética e sob o comando de Luís Carlos Prestes; nos anos seguintes, realizaria algumas viagens a países europeus com a segunda esposa, Heloísa Medeiros Ramos, retratadas no livro Viagem (1954). Ainda em 1945, publicou Infância, relato autobiográfico. Adoeceu gravemente em 1952. No começo de 1953 foi internado, mas acabou falecendo em 20 de março de 1953, aos 60 anos, vítima de câncer do pulmão. O estilo formal de escrita e a caracterização do eu em constante conflito (até mesmo violento) com o mundo, a opressão e a dor seriam marcas da literatura. Memória: Graciliano foi indicado ao premio Brasil de literatura.

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    Alagoas, Brasil

    Graciliano Ramos de Oliveira