Impossível. É assim que Mario Vargas Llosa define a suposta paixão imposta aos leitores de Os Miseráveis, de Victor Hugo. Essa paixão nada mais é que uma admiração quase quimérica pelo fim de todas as misérias humanas. No entanto, lembremos que há uma idealização, não uma imposição, e muito menos uma visão utópica por parte de Hugo. Por se tratar de um livro com essências fortemente políticas atreladas a um ideal revolucionário, Os Miseráveis foi fortemente criticado na época de seu lançamento. Isso é importante saber, já que a questão aqui é um pouco mais profunda do que simplesmente uma "tentação por aquilo que nunca se conquistará".
A Tentação do Impossível é uma análise não só de Os Miseráveis, mas também da vida de seu autor. Llosa analisou todos os pormenores da vida de Victor Hugo e os fatores que o levaram a criar um "mundo dentro de outro mundo". Apesar de boa parte das análises ser basicamente o conjunto de impressões que a maioria dos leitores conseguiria identificar sem nem mesmo analisar a obra de forma crítica, Llosa expôs alguns pontos e coincidências que, juntos, nos levam a pensar de uma forma um pouco mais desconfiada sobre a obra. Não que suas análises sejam uma impactante surpresa, mas são suficientes para questionarmos o que Victor Hugo realmente queria escrever.
Em primeiro lugar, Llosa apelida o narrador de "divino estenógrafo". Acho que não há definição mais completa do que essa. O narrador faz praticamente o papel de Deus no romance. A ele cabe a interferência nas ações e as explicações das mesmas, mas de uma forma autoritária, impondo uma verdade que penetrará na cabeça do leitor sem que ele perceba. À essa característica somam-se os relatos autobiográficos que muitas vezes recheiam as digressões de Os Miseráveis. Essa ligação nos faria pensar, imediatamente, que esse narrador onisciente é o próprio Victor Hugo. Acontece que Victor Hugo também está inserido em outro personagem, cuja trajetória de pensamentos e mudanças políticas é idêntica à do autor. Está aí um dos motivos pelos quais o estudo que Llosa fez sobre a vida do autor francês é de extrema importância para compreender o quanto dele há nessa obra.
O personagem atrelado a Victor Hugo dentro de Os Miseráveis (que não posso revelar por motivos óbvios) é, coincidentemente, um dos personagens que mais fogem ao gênero "monstruoso" que Llosa utilizou para definir as "extremidades" impostas às criações de Hugo. Eis uma das razões pelas quais o crítico comparou Victor Hugo com um de seus personagens. Entretanto, a visão de Llosa sobre essa característica me pareceu um pouco negativa, o que me faz discordar desse pensamento. Um ex-forçado com uma força descomunal e um policial agarrado desumanamente ao seu dever lhe parecem quase atrocidades. Será mesmo que Victor Hugo não tinha um propósito bastante definido ao criá-los dessa maneira? Estamos diante de suas representações fantásticas: a massa dos miseráveis e toda a sua força (muitas vezes oculta) e a limitação criada pela própria humanidade que nos faz menos humanos. Não entremos em um debate filosófico ou antropológico, mas esses "monstros pontilhosos" não são de todo inverossímeis.
Outra característica bastante notável que Llosa apresentou foram as coincidências. Os Miseráveis é um livro repleto delas e esse é um assunto que muito me interessa, porque ele é um dos pilares que faz uma obra parecer apenas remendo de seu início ou um conjunto de genialidades de seu autor. Victor Hugo, a meu ver, optou pelo segundo. No entanto, Llosa parece duvidar um pouco disso em alguns pontos. Certamente concordo que há coincidências em demasia, mas não me lembro de nenhuma delas ser um remendo ou propósito para servir de causa ou consequência a algo sem causa ou consequência; na verdade achei todas bastante verossímeis, principalmente quando estão atreladas à essência da obra, e não apenas a um pedaço do enredo ou a um personagem corriqueiro. Não há ponto sem nó em Os Miseráveis.
Puxando a corda das coincidências encontraremos, aliás, três nós bastante importantes, aos quais Llosa dá o nome de "ratoeiras". Nelas, mais do que em qualquer outro lugar, o divino estenógrafo age com maestria. Esse foi um dos pontos que me pegaram de surpresa. O crítico aponta a existência de três lugares-chave onde os grandes personagens se encontram e tornam a se encontrar em momentos decisivos da trama. Esses locais são protagonistas das reviravoltas mais marcantes. Eu até os havia considerado uma coincidência, mas não havia reparado em seus propósitos, como Llosa fez tão magistralmente.
Por fim, o assunto que dá título ao livro: a tentação do impossível. Llosa usa uma passagem de Alphonse de Lamartine que caracteriza bem sua crítica: "A mais homicida e mais terrível das paixões que se pode infundir às massas é a paixão do impossível". Bem, até onde vai o impossível? O que pode e o que não pode ser impossível neste momento da história da humanidade? Quem é que nos diz? Victor Hugo, de modo até despretensioso, parece suscitar na cabeça do leitor algumas ideias revolucionárias, em especial a possibilidade do fim de todas as misérias humanas. Segundo ele, a educação é uma luz capaz de extinguir a escuridão em que está imersa essa massa a qual Lamartine faz referência. Llosa critica essa espécie de tentação, mas deixa transparecer alguns pontos importantes.
A partir de certo ponto de vista essa visão é verdadeira, e nisso concordo (em partes) com o crítico. A possibilidade de uma sociedade mais justa sempre existiu e sempre existirá, mas ela nunca será justa o suficiente. Se é permitida uma comparação, lembremo-nos da célebre frase de George Orwell: "Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros". A questão é que Os Miseráveis pôde ter contribuído para uma tentação entusiástica de mudança, mas não seria capaz de atuar como um catalisador. No entanto, e se assim fosse? O que chamamos de progresso só o é porque, no decorrer de nossa história, alguém tentou transpor a barreira do que antes parecia impossível. Não se pode viver para sempre, mas se pode viver muito. Lembremo-nos disso.
O problema é achar que Victor Hugo inseriu essa espécie de tentação como uma vontade quimérica. Não o encarei dessa maneira e não acho que tenha sido esse o propósito da obra. Se houvesse uma vontade mágica e transformadora, algo surreal e avassalador, até concordaria com Llosa, mas Os Miseráveis é apenas uma obra que debate as misérias humanas, suas causas, consequências e a luta por um mundo menos injusto, e não a erradicação imediata de todas as injustiças, porque isso sim é impossível. Não estamos diante de um catalisador revolucionário, apenas de uma obra literária que partilha de ideais políticos, religiosos e filosóficos sobre a condição humana.
Os Miseráveis é uma obra tão magistral e bem elaborada que faz com que seus leitores mergulhem em um mundo diferente, enxergando-o como o seu próprio mundo, mas também como um mundo ideal. Como eu havia dito antes, "um mundo dentro de outro mundo". O leitor não apenas vive uma história, mas sonha com ela e a idealiza minuto a minuto. Quanto a isso, Llosa afirma que a obra de Victor Hugo é uma espécie de "irrealização da realidade". Neste ponto eu discordo, mas discordo pela grandeza tentadora exagerada que o crítico impôs a Os Miseráveis e que não está necessariamente lá. Escrever sobre os problemas de uma sociedade, apontar suas causas e suas consequências e idealizar uma crítica válida até os dias atuais não é uma realidade manipulada, muito menos uma incitação ao improvável. Em Os Miseráveis estamos diante de um mundo real e, por isso, cruel. Almejar justiça não é tentar o impossível às massas. O próprio Victor Hugo define sua obra como um "ensaio sobre o infinito". Ele mesmo reconhece, com essa frase, que a miséria humana, em todos os seus significados, nunca será erradicada, e que todos os problemas e emoções ali citados nunca serão finitos. A tentação da mudança e do progresso, se vistos como passos pequenos (e não como saltos gigantescos, avassaladores e imediatos, como o Llosa parece ver), são a base para que o mundo evolua. Não estamos diante da tentação do impossível, mas sim da tentação do infinito.