Sempre que pego um Veiga, gosto de perceber o quanto minha pesquisa de mestrado tem sentido. O autor é sim, um escritor de utopias e distopias e o que faz em seus espaços por vezes singelos, mas com ares de grandeza faz com que dificilmente tiremos os olhos de seus não-lugares que sem dificuldade o fizeram um dos grandes nomes da literatura nacional dos últimos 70 anos.
A premissa de "O risonho cavalo do príncipe", seu antepenúltimo livro, percorre as tramas da metaficção e das questões sociais com didatismo e propriedade de alguém que já tem décadas no ramo da escrita, e Veiga deixa isso transparecer em sua escrita leve e decalcada por uma doce poesia que faz com que as palavras escorram com a maior facilidade, por isso lê-lo de uma vez só não é complicado e gratifica pela facilidade de um livro que facilmente poderia ser escrito para uma criança de 10 anos como para nós irreparáveis adultos. Acredito que para essa última classe é até mais valioso, pois demonstra, através da imaginação, a presença de lugares que por vezes nos esquecemos de acessar, seja qual for o motivo.
Muitos podem reclamar do tom faltoso do autor, que deixa várias questões por deslindar e que pouco desenvolve algumas nuances que se mostram bastante valiosas, mas depois de ler praticamente toda a sua obra, acho que aprendi que é exatamente nessas lacunas, no não-dito do insólito que a beleza de sua literatura repousa, pois aí deixa a possibilidade de não sermos apenas leitores e/ou ouvintes de suas narrativas, mas cúmplices de seus benfazejos ou malfazejos, tão importantes para assegurar seu lugar de ouro.