a leitura deste livro, pra mim, foi bastante difícil, principalmente nas primeiras 150 páginas. com uma narrativa muitas vezes minuciosa demais, descrevendo as terras da áfrica onde se passa a história, o livro cansa. as palavras em línguas nativas, misturadas ao português do livro, truncam ainda mais a leitura...
no entanto, é impossível não se apaixonar pelo narrador do livro, o escravo mudo sem nome. nesta condição, ele segue seu dono, balthazar van dum, a todos os lugares que este vai, ouvindo todos os mujingos (fofocas) e segredos que o seu senhor, digno da posição social que ocupa, tem acesso. por vezes imagina aquilo que não ouviu e, assim, vai contando a história da época que os holandeses ocuparam angola.
a beleza está na aceitação de subjugado do escravo. em como - narrando de forma tão impessoal, ele conta as crueldades que foram cometidas contra o povo africano; narra as hipocrisias de uma família mestiça, ainda assim cheia de preconceitos; nos atenta para a micropolítica e mostra como se dão os pequenos e grandes abusos de poder. tudo isso, seguido de análises sensacionais, nunca esquecendo da sua condição de escravo-coisa-que não pode pensar. tudo, claro, com um fino toque de ironia.
um tratado da sociedade de outrora, que ainda tem reflexos na contemporaneidade. difícil, mas a leitura valeu a pena.