Embora não pareça pelo título, o livro trata, em suma, sobre cultura. Tudo que permeia a concepção, formação e caracterização de uma cultura, Alain trata nessa obra. E eu considero algo de muito valor o livro ter uma espécie de linha do tempo: ele começa tratando sobre o espírito nacional de um povo (Volksgeist) e conforme vamos lendo, Alain vai nos mostrando de quais formas alguns “especialistas” no assunto têm destruído o senso de pertença comunitária, e posto no seu lugar um sendo de “cidadão do mundo”, responsável por descaracterizar o sujeito e arrancá-lo de suas bases.
Obra tida como reacionária, fascista… um ensopado de tudo que há de ruim no mundo, é na verdade, uma obra clarificadora de diversas problemáticas sobre as quais estamos imersos demais para enxergar. O autor escancara as hipocrisias dos “habitantes do mundo”, sem deixar de lado as perniciosidades dos reacionários. A grande cereja do bolo nessa obra, não para por aí, ele também adentra em terreno – hoje – espinhoso ao tratar do racismo em sua definição original e tratar o preconceito como uma “grade de proteção do pensamento”.
Em suma, talvez seja doloroso lê-lo e perceber que nos encontramos envoltos em fumaça opaca com cheiro de tuttifruti trazida pelos diversos movimentos sociais ditos emancipatórios, quando em realidade eles não compreendem que “a limitação da autoridade não garante a autonomia do julgamento e da vontade; o desaparecimento das coações sociais herdadas do passado não é suficiente para assegurar a liberdade do espírito” e que, principalmente “a liberdade é diferente do poder de mudar de prisão e que a própria cultura é mais que um impulso saciado”.