Não lembro ao certo onde li pela primeira vez sobre O Trono do Sol... Mas lembro que o que mais me chamou a atenção foi a arte da capa. Linda! Impossível não se interessar. Lendo a sinopse, eu já tinha uma certeza: eu queria aquele livro.
Porém, havia uma declaração de George Martin, que me deixou com uma pulga atrás da orelha. Mesmo me prometendo não criar expectativas muito altas para a nova série, denominada Ciclo Nessântico, tinha muito medo de me decepcionar. Afinal, a Leya fez de tudo para associar a obra de S.L Farrel ao novo fenômeno mundial As Crônicas de Gelo e Fogo. Até acrescentaram um título “extra” no tomo. O Trono do Sol não faz parte do título original, que se chama, em tradução livre, Uma Magia do Crepúsculo. Devido à desgraça em que caiu a palavra crepúsculo nos últimos tempos, aqui no Brasil não quiseram se arriscar e resolveram chamar o livro de A Magia da Alvorada.
Espera aí! A série é denominada Ciclo Nessântico, o título do livro é A Magia da Alvorada, então para quê outro subtítulo, O Trono do Sol? Pois é. Alusão a certo trono de ferro, em... Deixa para lá. O fato é que estava temeroso em encontrar uma cópia mal executada da obra de Martin, mas acabei comprando mesmo assim. Confesso que essa minha preocupação foi desnecessária.
Existem poucas semelhanças entre o Ciclo Nessântico e a obra de G. R. R Martin. Quase nenhuma. A Magia da Alvorada – O Trono do Sol, narra os acontecimentos em Nessântico, uma cidade inspirada nas cidades renascentistas européias, e o foco da trama é voltado para as disputas religiosas e pelo controle da cidade de Nessântico, símbolo de poder e riqueza.
S. L. Farrel criou toda uma estrutura hierárquica para a sociedade, o que pode confundir o leitor, principalmente no início. Além disso, vários termos foram cunhados excepcionalmente para a obra, fazendo que tenhamos que recorrer ao glossário inúmeras vezes, até nos adaptarmos. Os nomes dos personagens também são complicados, e com uma pronúncia esquisita. Mas em compensação, a narrativa é rápida e fluente, e apesar do número de páginas, é uma leitura fácil.
Infelizmente, os personagens com algumas exceções, como o mendigo Mahri e o Archigos (espécie de papa da Concézia) Dhosti Ca’Millac, são apagados e mediocremente desenvolvidos, e para mim, foi impossível simpatizar com a causa destes. A protagonista Ana Co’Seranta é apática, sem motivação própria, sempre sendo manipulada, e sofre algumas alterações comportamentais inexplicáveis. Outro ponto que me incomodou foi o destino de vários personagens. Além de primar por uma boa concepção, eu acredito que um autor deve saber sacrificá-los, para que a morte não seja algo superficial e sem importância para o restante da história, e Farrel parece não ter se aprimorado muito nisso...
Porém, o livro tem seus méritos, e um dos pontos mais interessante na obra é a crítica a algumas religiões, e aos malefícios de se considerar um livro escrito e alterado pelos homens ao longo dos séculos como algo sagrado e tê-lo como uma lei para ditar os costumes da sociedade. Fiquei decepcionado, porém, no final, porque toda essa crítica parece ter sido descartada pelo autor ao trazer os numetodos (ateus?) como inferiores, e quase se (re)convertendo à Concézia.
O final do livro, aliás, é bem fraquinho. Tenho o (mau) hábito de adotar certos autores como modelos de excelência para determinados assuntos, Bernard Cornwell é o meu modelo para batalhas, e Farrel falha miseravelmente ao escrever a guerra por Nessântico. Em toda a contenda, nada faz muito sentido, principalmente o comportamento dos generais. Além disso, o autor opta por um final preguiçoso, absurdo e incoerente, deixando vários acontecimentos sem explicações. Pode-se alegar que, como sendo parte de uma série, essas explicações virão nos próximos volumes. Pode ser, mas o epílogo dá a entender que o próximo livro se passará algumas décadas depois. E a menos que Farrel ressuscite certos personagens, algumas perguntas permanecerão sem respostas.
Talvez minhas impressões tenham sido influenciadas pelo final lastimável, e por isto dou três estrelas, mas poderia ter sido quatro (editado - reduzi minha avaliação para ficar condizente com a resenha). Mas quero deixar claro que, se tivesse a opção, três e meio seria a minha avaliação. Um bom livro - com problemas, é verdade - que promete uma série com potencial.
P.S.: Apesar da arte da capa ser magnífica, o material utilizado é de péssima qualidade. A Leya deveria tomar mais cuidado com esta questão, pois seus trabalhos estão deixando a desejar. E tem quem reclame das capas de edições econômicas lançadas no Submarino.