Victor Lodato é dramaturgo e poeta . Suas peças ganharam diversos prêmios, entre eles o Kennedy Center Fund for New American Plays. Mathilda Savitch, seu primeiro romance, foi publicado em onze países.
Após a morte de sua irmã mais velha - que foi brutalmente assassinada, jogada na frente de um trem por um desconhecido, Mathilda Savitch precisa lidar com o luto e o distanciamento de seus pais. Abalados pela tristeza indizível que se abateu sobre eles após a morte da filha mais velha, eles parecem querer enterrar o passado, e trazer a morte de Helene à tona se torna estritamente proibido.
Paralelo a inércia de seus pais e aos constantes ataques terroristas que acontecem pelo mundo, Mathilda tenta desvendar o mistério em torno da morte de sua irmã ao mesmo tempo que passa pela complicada fase da adolescência.
"Vejo que papai está sofrendo e que a dor dele é diferente da minha. Dá pra sentir um oceano entre nós, com a água escura e muito gelada. Será que alguém disse que o luto é uma ilha? Se não o disseram, digo eu. É minha invenção. Um dia você poderá consultá-la no livro de citações citáveis.
O luto é uma ilha. - Mathilda Savitch." (pág.132)
Mathilda Savitch traz a história triste e pungente de uma adolescente carente que ao cometer maldades, tenta desesperadamente chamar a atenção de seus pais. Um ano após a morte violenta da irmã, Mathilda diz que quer ser "terrível". Seja jogando pratos no chão ou beliscando seu cachorro, as tentativas de atrair atenção para si, parecem não surtir efeito.
Um mistério constante ronda a mente da adolescente: Quem teria empurrado sua irmã, e por que ele fez isso? Obcecada em encontrar o assassino que ainda está à solta, ela decide vasculhar os e-mails da irmã, procurando encontrar alguma pista.
O livro é narrado em primeira pessoa, por Mathilda, cuja idade não é citada, mas a julgar pela experiência recente da primeira menstruação, supõe-se que seja algo entre os 12 e 14 anos. Ela atravessa uma fase de adaptação, abandonando a infância e tendo que lidar com seus desejos e sua sexualidade. Aqui temos um verdadeiro conflito interno, onde a protagonista diz amar sua amiga Anna, mas fantasia namorar seu vizinho Kevin.
Através de capítulos curtos e perfeitamente estruturados, o leitor irá mergulhar na mente conturbada e contraditória da precoce pré-adolescente. Inteligente, pragmática e emotiva, Mathilda me conquistou por sua fragilidade aliada a uma personalidade forte. Vivenciando conflitos adultos, ela busca constantemente por uma fuga da realidade, como da vez em que se esconde no porão, para não ter que lidar com a negligência de seus pais.
O que engrandece o romance é a forma natural com a qual o autor aborda a ambivalência dos sentimentos da protagonista: em um momento ela tenta desesperadamente receber a atenção da mãe, no outro ela confessa que desejaria vê-la morta. Particularmente, a sinceridade da personagem foi o ponto que mais me atraiu na história. O autor nos leva a refletir quantas vezes refreamos nossos pensamentos mais obscuros, com medo de externar nossos sentimentos, e causar choque nas pessoas.
Alguns personagens secundários apenas complementam a narrativa, mas não possuem destaque na mesma - embora suas histórias estejam entrelaçadas com as de Mathilda. Senti que o autor poderia ter se aprofundado mais na questão da mãe, que se tornou alcoólatra no período do luto.
O mistério acerca do assassino vai ganhando destaque conforme a trama avança para seu final, e nos deixa apreensivos para conhecer o desfecho, ao mesmo tempo em que torcemos para que Mathilda consiga encontrar o caminho para o coração de seus pais. Com uma narrativa autêntica, vibrante e no final emocionante, Lodato transmite as inseguranças e emoções de forma suave, porém em alguns momentos utiliza de um humor morbidamente perverso, o que torna a obra única.