O papel da filosofia
Dentre as possíveis definições do que seria a filosofia, Cirne Lima escolhe aquela segundo a qual a filosofia é um conhecimento da totalidade.
A partir dessa perspectiva, ele critica a tendência moderna e contemporânea de reduzir a filosofia à teoria do conhecimento ou à filosofia da linguagem, deixando em segundo plano a relação com o avanço das ciências particulares. Essas ciências, que antes integravam o campo filosófico, conquistaram autonomia e passaram a se dedicar a recortes específicos da realidade.
Caberia, portanto, à filosofia, retomando seu papel histórico, realizar uma grande síntese do conhecimento, buscando compreender o todo.
O sistema
Cirne Lima pretende apresentar um sistema; esse sistema segue as três partes de Hegel: Lógica, Natureza e Espírito. Na Lógica, sua defesa é da dialética como metodologia; assim, ele procura demonstrar como a discordância entre dialéticos e analíticos pode ser superada quando compreendemos a distinção entre contrários e contraditórios. Na parte da Natureza, o autor defende uma simetria entre os princípios lógicos da dialética e a biologia evolutiva, o que é de fato interessante e cumpre sua exigência de que o filósofo não deve ignorar as ciências particulares. No entanto, ele ignora deliberadamente a Física, o que me fez pensar se essa simetria seria possível também nessa ciência (a tradicional filosofia da natureza).
Já na terceira parte do sistema, a Filosofia do Espírito, ele identifica os princípios lógicos com a Ética e a Política. Nesse ponto, o foco é evitar a contradição e buscar a coerência, recuperando, basicamente, o Imperativo Categórico de Kant. Já na Política, apresenta uma defesa dos direitos mais básicos do ser humano e critica o comunismo como uma espécie de violência da igualdade; o princípio lógico da igualdade precisa ser limitado de modo a abrir espaço para a diferença, tanto na lógica quanto na biologia e na política. Essa é a parte mais problemática de todo o sistema: a visão de que o comunismo busca uma igualdade totalitária, e não uma igualdade definida — igualdade entre classes sociais condicionada pela propriedade dos meios de produção.