Petersburgo -

    Andrei Biéli

    Ars Poetica
    1992
    368 páginas
    12h 16m
    ISBN-10: 8585470038
    Português Brasileiro

    São Petersbugo, capital do Império Russo, epicentro de um terremoto a abalar culturalmente a Rússia, é o tema deste romance arrojadamente moderno. Cenas vividas no ano revolucionário de 1905, com clima de guerra civil marcado por atentados e pelo trauma da derrota ante os japoneses. Escrito pelo maior teórico do simbolismo russo, Andrei Biéli (1880-1934), Petersburgo foi considerado por Vladímir Nabokov uma das quatro obras-primas em prosa do século XX, ao lado de Ulisses, de James Joyce, A Metamorfose, de Kafka, e de Em busca do tempo perdido, de Proust.

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    A INSTIGANTE REVOLUÇÃO DE BIÉLI

    Petersburgo de Andrei Biéli foi considerada por muitos escritores e críticos de literatura como uma das grandes obras literárias advindas da Rússia no século XX. É obra complexa, embebida da cultura e da história do seu país. O argumento é aparentemente simples, mas terrível: Nicolai Ableukhov, filho do senador Appollon Ableukhov é um jovem revolucionário – um tanto descompromissado com os rumos políticos do país, um apêndice do Partido, como um dos personagens definiria seu caráter – que, no ano turbulento de 1905 é incumbido de uma tarefa cruel: plantar uma bomba em sua casa para assassinar o pai reacionário. Apesar do tema forte, engana-se, no entanto, o leitor que pensa encontrar uma obra focada numa espécie de thriller na figura de Nicolai e a sua tarefa. Apesar da tamanha brutalidade do enredo, Petersburgo é muito além disso. Petersburgo não é livro fácil, a começar pela questão da linguagem. Biéli, é autor com uma importante bagagem poética. É um dos mais importantes poetas dentre o grupo de admiradores do simbolismo francês, que irá tecer a base da poesia russa modernista. Sua linguagem é carregada de inovações linguísticas – aqui vale lembrar que a primeira edição de Petersburgo é anterior a publicação de Ulisses, de James Joyce. Advindo poesia simbolista russa revolucionária, que utiliza expedientes da poesia concreta, Biéli nos presenteia com uma prosa poética que a primeira vista causa certo estranhamento. Suas inovações acerca da pontuação e linguagem dão o tom acerca da obra, aprofundando psicologicamente seus personagens e propondo, através do mesmo recurso, diferentes níveis de apreensão da ação. No entanto, não devemos nos fiar somente pelos caminhos do modernismo se quisermos achar a sintonia correta para uma boa apreciação da obra. Petersburgo, obra moderna é também por seu lado, um romance de tradição. A tradição da história e cultura russas e, mais ainda, da história e tradição de São Petersburgo. Petersburgo é um romance. Vale ressaltar a impressão certeira de Berman, em seu livro “Tudo que é sólido desmancha no ar”, quando ele diz a obra de Biéli parece “submergir frente ao peso da tradição russa”. Povoa o romance personagens e episódios centenários da história russa. É um romance que não existiria sem o peso dos Czares, mas também não existiria sem a obra de Puchkin, Gogol, Turgueniev, Tolstói, Dostoievski, Soloviov, entre outros. Estas obras e feitos da história russa são ponto de partida para a profusão de personagens e situações que permeiam Petersburgo. Outro ponto interessante a se ressaltar é que Petersburgo foge da armadilha do simples relato das opressões e mazelas de uma Rússia convulsionada, escapando assim de um simples denuncismo. Engana-se o leitor que espera encontrar na obra impressões naturalistas. É sim obra que reverencia a herança herdada de Zola, mas bebe da riqueza construída pelos oprimidos de Gogol e pelos humilhados de Dostoievski. Longe de poder sofrer as críticas – muitas vezes injustas, diga-se de passagem - que alguns de seus contemporâneos como Andreiev ou mesmo Gorki sofreram; Biéli escapa deste julgamento por novamente confiar na tradição. Parece crer na memória da literatura russa ao povoar o livro com personagens advindos da seleta tradição que gerou Ivan Karamazov, Akaki, Raskolnikov, Razumikin, Eugeni Onieguin. Onde a literatura engajada da época parecia encontrar no naturalismo grande parte de seu modelo, Biéli encontra na tradição do fantástico russo o caminho de sua narrativa. A Petersburgo de Biéli – vale lembrar aqui o que disse Otto Maria Carpeaux na História da Literatura Ocidental - antes de denunciar em um painel amplamente naturalista a situação política e social da época, é obra da fantasia de Petersburgo. Da São Petersburgo da imaginação de Biéli. Assim, Biéli nos apresenta uma obra caleidoscópica., onde o autor erige o testemunho de angústias de um tempo em convulsão. Personagens que testemunham a história e fazem girar seu moinho, ganham o mesmo enfoque daqueles que passam a margem do seu tempo. Questões universais ganham tratamento balanceado com as angústias pessoais. Petersburgo não é obra de um único ponto de vista, trazendo algo da polifonia dostoievskiana apontada por Bahktin. Parecendo antecipar as futuras gerações de Alfred Döblin e inclusive Bertold Brecht, Biéli da foco aos mais variados modos de vida e pensamentos. Povoam sua obra políticos reacionários e revolucionários à porta de fábricas, greves e bailes, estudantes socialistas e senhoras obtusas, o místico e o niilista, o apolíneo e o caótico. Em seus personagens habitam a convulsão de uma Rússia em ebulição.

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