Baseado em uma história real do Período Imperial, o livro conta o "Caso de Pontes Visgueiro", desembargador alagoano, atuante no Maranhão, com mais de 60 anos de idade, solteiro e com deficiência auditiva, que em um de seus vários envolvimentos amorosos apaixonou-se por uma meretriz bem mais nova e fazia de tudo para agradá-la, oferecendo dinheiro, bens materiais e até propondo casamento. Porém, a jovem tinha asco do desembargador e vivia fugindo dos encontros com ele, o que não acontecia com os outros homens. Pontes Visgueiro, apaixonado, com ciúmes, começou a ficar agressivo e premeditou a morte da amada. Encomendou dois caixões, um de zinco e outro de madeira, e com a ajuda de um serviçal matou Mariquinhas e esquartejou seu corpo antes de guardar os restos mortais nos respectivos caixões.
A TARA E A TOGA -
Waldemiro Viana
Uma paixão destrutiva
Escrita por Waldomiro Viana, romancista, cronista e poeta natural de São Luís do Maranhão, A Tara e a Toga promete a seus leitores uma leitura que carrega genuínas características da sociedade ludovicense do século XIX, na qual retrata o caso do honrado magistrado José Cândido de Pontes Visgueiro e sua amante Mariquinhas, situado em um contexto no qual a prostituição, a traição, a paixão desenfreada e o assassinato constituem as cenas com ares de naturalidade. A introdução desta obra adverte que os episódios narrados, apesar de serem baseados em uma estória real, foram romanceados e que, portanto, não se deve levar tudo ‘ao pé da letra’. O aclamado jornalista maranhense Ubiratan Teixeira também nos oferece seu conselho “Relaxem e gozem: esta é uma obra de ficção a partir de fatos concretos”. Estando todos advertidos, vamos aos fatos. Mariquinhas, com seus 10 anos, surge no primeiro capítulo acompanhada de sua mãe em uma situação deplorável; vestida em maltrapilhos e pedindo esmola. Sua mãe, dona Luísa Sebastiana, uma ex-prostituta que se encontra em uma situação financeira difícil - dada a idade que lhe roubava as graças físicas da juventude e, consequentemente, os clientes -, percebia na beleza da filha uma oportunidade de sobreviverem. Pontes Visgueiro, neste contexto, teve seu contato inicial com a futura amante ao deparar-se com a cena pública da calamidade das duas personagens em uma das ruas de São Luís. Ao ser questionada pelo magistrado acerca dos trabalhos realizados pela menina, a mãe da menina lhe responde: “[...] meu senhor, ela faz tudo o que o branco quiser.” (p. 18). Ver uma criança naquele estado tocou profundamente o coração “benevolente e justo” de Pontes Visgueiro, da mesma forma que atiçou a atenção do homem carnal, se é que me entendem. Mas ele, acometido por uma pancada em seus testículos, perdeu suas capacidades de ereção e se mostrava incrédulo quanto a possibilidade de desenvolver alguma relação ‘desse tipo’. O magistrado tentou sucumbir seus segundos interesses, focando apenas em tentar ajudar uma “pobre alma” que vagava pelas ruas. Era tamanha a boa vontade, que intencionava pagar os estudos e dar tudo o que a moça estivesse precisando, cumprindo assim com o seu papel de cidadão justo. Entretanto, Mariquinhas não queria sair daquela vida. Pelo contrário! Achava a vida escolar enfadonha, e preferia muito mais o seu trabalho nas ruas. Gostava de deitar-se com rapazes, não com senhores como Pontes Visgueiro. Suspeitando das ‘boas intenções’ manifestadas por aquele “velho” [como ela o chamava], Mariquinhas resolveu fugir, deixando-o frustrado a lamentar não poder realizar sua boa ação. Passaram-se alguns anos e Mariquinhas tornou-se uma moça belíssima e desejável. Estes anos lhe proporcionaram mais beleza e mais consciência de sua situação. Começava então a sentir vergonha de seus trajes sujos e velhos, e pedia sempre à mãe que lhe comprasse roupas novas - em vão, pois a resposta era sempre uma negativa. Enfadada, a mãe reclamava aos quatro ventos que a filha não queria receber os clientes bons, isto é, “senhores endinheirados”. A intolerância de Mariquinhas aos homens mais velhos precisou ser domada, ou a situação financeira tornaria-se mais difícil. Passou a receber estes clientes especiais, a contragosto, por uma boa causa: queria vestir-se bem, como as ‘moças de boa família’. Sua ida à costureira lhe possibilitou conquistar uma amizade: a de Ana Rosa. As duas tornaram-se amigas íntimas, e a relação de ambas se estendeu até o último capítulo. O vínculo com Ana Rosa viabilizou o reencontro entre Mariquinhas e Pontes Visgueiro, intermediado por Amâncio da Paixão Cearense, amigo que se dispôs a procurar a ‘pobre mocinha’ que seu compadre tanto queria encontrar e beneficiar. O reencontro aconteceu e o relacionamento entre os dois progrediu: o homem enlouquecia de paixão por sua amante, e a amante, nutrida por aversão e antipatia, deitava-se com o “velho babão” e atendia a todos os pedidos inusitados com apenas uma finalidade: ter casa, dinheiro, vestidos, jóias e os demais luxos que o dinheiro poderia proporcionar. O resultado dessa relação é a pura infelicidade para ambos. Pontes Visgueiro perdeu o controle de sua razão, chegando a burlar seus próprios princípios de “homem da lei” pelo qual era aclamado. Culpava Mariquinhas, dizia horrores ao pegá-la com amantes, mas, no fim, voltava a estar com ela e implorar-lhe perdão, alegando ser enfeitiçado. Com prefácio escrito por Ubiratan Teixeira, esta obra conseguiu capturar minha atenção apenas por seu título. Após a leitura do prefácio e do primeiro capítulo, soube que eu deveria ler até o final, mesmo sendo alertada de que a obra me provocaria desconfortos. Como qualquer história baseada em fatos reais, A Tara e a Toga choca seus leitores pela veracidade das ocorrências que comunica. Eu, particularmente, passei a obra inteira irritada por ser demasiadamente próximo da realidade. No que diz respeito à estrutura, julgo encontrar apenas alguns “saltos” no enredo que me deixaram um tanto confusa - nada que impeça a compreensão. A leitura em si é rápida, as ilustrações cumprem seu papel complementar e o autor possui uma escrita simples e atrativa.
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