Enquanto muitos autores, como James Joyce e David Foster Wallace, são lembrados por suas complexidades literárias, que romperam barreiras em suas épocas ao apresentar, a seu modo, diversas histórias em características, formatos e linguagens peculiares, porém exitosas, outros tantos autores se consagram com o simplório, mas igualmente eficaz.
O controverso Naipaul, por exemplo, inspirou-se no mais simples detalhe, do cotidiano de sua vida, para escrever seu primeiro livro, "Miguel Street": o dia-a-dia da vizinhança de sua rua de infância, em Trinidad e Tobago. E que ótimo começo!
Embora inicialmente com poucos detalhes, o que aparenta certo desleixo de amador, a narrativa se mostra, com o passar das páginas, e confirmado pelo autor em entrevistas, um efeito proposital, pois o protagonista, uma criança sem nome, observa o movimento de sua rua, seus vizinhos e seus afazeres.
A criança, óbvio, observa com seu olhar sincero cada um dali, seja com curiosidade, temor ou admiração por alguém, mas principalmente ingenuidade ante as atitudes muitas vezes atrozes de cada um. Porém, os anos vão passando, e a criança vai se tornando um adolescente ferrenho, ou um jovem não tão mais admirado do mundo, e seus comentários a respeito das mesmas pessoas, como é de se imaginar, muda.
Um exemplo é o de uma personagem que possui oito filhos. A preocupação inicial do protagonista ainda criança é a respeito do tamanho da barriga da mulher, que cresce a cada gravidez, para então diminuir por certo tempo, quando volta a crescer; anos depois, o olhar do adolescente encara um quadro de violência doméstica, ou de apatia ante a grande quantidade de crianças que ali moram, com suas dificuldades sociais.
É justamente esse prisma, essa câmera ajustada quase que anualmente, que mostra o quão fantástica e cheia de camadas uma pessoa pode ser, por mais simples para a sociedade. Mais ainda, como as opiniões a respeito dela podem variar com o passar dos anos.
O livro se divide em 17 capítulos, em que cada um é focado em um habitante, enquanto os demais são mencionados ocasionalmente nos outros contos, então são 17 histórias fascinantes, quase como contos, que carregam como ponto em comum a Rua Miguel.
Eficiente sem precisar ser, necessariamente, complexo, "Miguel Street" apresenta da maneira mais bela possível como é viver em uma rua de um pequeno país caribenho.
Este livro faz parte do projeto "Lendo Nobel".