Como já nos lembrou Píndaro, o homem ”é um sonho de uma sombra”. Esta sensação de falta, de falha, há de perseguir o ser humano sempre. O poeta posto diante deste mesmo dilema sente que não consegue enfrentar a grandeza do que precisa ser dito. Não consegue captar as palavras que traduzam a sua visão da engrenagem do mundo. Acuado, espezinhado pelo mal-estar de querer dizer o indizível, ele não desiste. Trava sua luta. Perde muito. Afinal, perder é uma arte. Ganha, entretanto, alguma coisa: os poemas surgidos deste embate. Em ”A fera incompletude”, Fabrício Marques apresenta uma coletânea notável por suas inúmeras ramificações e também pelas várias formas do seu labor literário. Do poema minimalista ao poema-reportagem, ele experimenta os recursos da crônica, da prosa, da sátira e do humor. O livro começa com um cristalino poema, ”Hesíodo”, onde o autor anuncia a abertura dos trabalhos. ”No tempo que se chama agora/ Labor sobre labor se espalha”. A relação com o mundo é repleta de atritos, numa resistência teimosa. ”Vivo, disfarçado de morto”. Ao poeta, tudo parece uma luta perdida. ”Perdi tudo, exceto essa fera incompletude”.