Sem spoilers, "Os Reis do Rio", de Rafael Lima, é um contínuo de cenas de ação sobrepostas e pouco desenvolvimento dos personagens, muito bidimensionais. O ritmo parece meio esquizofrênico e artificial, os acontecimentos se sobrepõem com manobras literárias que ficam evidentes demais quando deveriam ficar pouco perceptíveis ao leitor
"Os Reis do Rio" tem algumas poucas páginas de um começo promissor. Ao contrário dos textos pouco elaborados que, em geral, se vê na ficção científica brasileira, o autor tem um texto leve e acessível sem ser simplório, o que é um excelente começo - e atributo em falta na nossa literatura de fantasia.
Se o texto é bom, o problema é a história.
O que se vê o tempo todo é ação/personagens em perigo/alguém os salva/o contexto muda/ação/personagens em perigo/alguém os salva. A história toda parece mal imaginada, como se o autor tivesse tentado alongá-la mais do que deveria. Ao invés de emocionantes, as cenas de ação se tornam repetitivas e cansativas.
É difícil manter algum vínculo com os personagens, já que o desenvolvimento deles é muito ralo e tudo parece tão superficial. No começo do livro, uma senhora vê a moça que criou ir embora para uma morte certa em Iraputã - a cidadela da organização Radius - e trata aquilo com tanto desdém e pouco caso que chega a ser chocante. E não é só nisso, todos os personagens parecem movidos por alguma motivação quase nula e completamente absurda.
Algumas cenas simplesmente não fazem sentido algum. Uma criança pequena consegue enfiar uma faca na nuca de um assassino (!) e seus companheiros, que o aguardavam do lado, não fazem nada. A cada dez páginas aparece um novo mexican stand-off (um grupo de pessoas apontando armas uma para as outras), recurso narrativo até interessante, mas usado com exagero aqui.
Um ponto positivo dos "Reis do Rio", que inclusive foi a razão pela qual lhe dei duas estrelas, é a ambientação. O cenário do Rio de Janeiro pós-nuclear é bem imaginado, apesar de ser pouco crível que o Brasil tenha sido alvo de ogivas nucleares durante um conflito entre China e Estados Unidos.
Outra coisa que incomoda é a semelhança EXCESSIVA do livro com o jogo Fallout 3, da Bethesda, lançado há dois ou três anos, não tenho certeza. Desde os conceitos até os personagens são idênticos. Seria melhor que o autor não abusasse tanto da inspiração, ficou descarado.
Enfim, eu poderia apontar mais algumas bizarrices de "Os Reis do Rio", mas é melhor eu parar por aqui. Para quem é fã de cyberpunk e ficção científica nacional, vale pela curiosidade. É uma leitura curta, o que ajuda quando a obra não é lá tão boa
Uma pena...