O Carro dos Milagres - O conto

    Benedicto Monteiro

    Editora Amazônia
    2011
    56 páginas
    1h 52m
    ISBN-13: 9788589916615
    Português Brasileiro

    O Livro O Carro dos Milagres, de Benedicto Wilfred Monteiro (1924-2008) é uma coletânea de narrativas publicada em 1975, durante os Anos de chumbo (Ditadura Militar), de censura à cultura escrita. Premiada pela Academia Paraense de Letras, a presente coletânea contêm relatos de um caboclo que vem da brenha das matas amazônica contar suas histórias, memórias, culturas e saberes. Das sete narrativas, é importante enfocar aquela que contém o mesmo título do livro: O Carro dos Milagres. Ainda que inserida num livro de contos, a primeira narrativa – O Carro dos Milagres – enquadra-se na categoria de novela, porque o enredo dela não trata de um único assunto, mas sim de vários e com muitos personagens; além disso, cabe-lhe o patamar de novel pelo fato de ter menor extensão do que o romance. Todavia, não é interesse trabalhar o aspecto do subgênero narrativo, mas sim tratar do conteúdo e da estrutura narrativa da referida obra. A novela O Carro dos Milagres apresenta a experiência do caboclo Miguel dos Santos Prazeres (embora esse nome não apareça nesse texto, pode-se dizer que ele é subentendido de acordo com o conjunto da coletânea) no Círio de Nazaré em Belém/PA. Primeiramente, nota-se o diálogo entre dois caboclos (Personagem-narrador e o Compadre) que vieram acompanhar o Círio, sendo que Miguel tem o interesse de pagar uma promessa que a sua mãe fez a Nossa Senhora de Nazaré do Retiro (ou do Desterro) quando o rapaz encontrava-se em situação de perigo com sua canoa nas águas do Marajó. A mãe velha prometera a Santa que se seu filho fosse resguardo do temporal ele haveria de levar um barco a vela de miriti durante a procissão. O personagem-narrador (Miguel) descreve, de forma maravilhosa, os detalhes da procissão que está assistindo pela primeira vez, volta-se ao passado de suas lembranças para contar suas sagas de canoeiro no Igarapé da Mata do Catauari com o Compadre, um amigo que o acompanha no Círio e numa beberagem com cachaça de Abaeté, enquanto aguardam no nascer do dia a saída do Círio no Largo da Sé (atual Praça Dom Frei Caetano Brandão).

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    Marina Lima de Oliveira07/11/2011Resenhou um livro
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    Identidade Paraense

    “O Carro dos Milagres” apresenta o caboclo que chega à cidade grande e se impressiona com a quantidade de gente, a magnitude da Basílica e a força da fé. Os três capítulos do conto “O Carro dos Milagres” -pertencente ao livro de mesmo nome- de Benedicto Monteiro retratam uma das festas mais grandiosas do mundo: o Círio de Nossa Senhora de Nazaré. Essa tradição popular e religiosa é uma marca do povo paraense, independentemente de sua religião. Na referida obra faz-se presente a linguagem popular, os neologismos, as gírias caboclas e o próprio caboclo. Percebe-se a mistura entre o profano e o religioso, a crença em superstições e na naturalidade com que esses elementos são conciliados. Qualquer um de nós, leitores paraenses- por nascimento ou opção- encontra-se nas páginas de “O Carro dos Milagres”. Vemo-nos nas situações apresentadas pelo autor e cada passo dado pela nossa personagem principal é, talvez, a lembrança de algum momento vivido durante a procissão. A promessa feita à Virgem de Nazaré para salvar nossa protagonista da morte em alto-mar é o motivo que á leva a acompanhar a procissão e deixar um pequeno barco em agradecimento à Santa, no carro dos milagres. Para ele, cumprir a promessa torna-se algo muito difícil, ainda mais depois de uns goles de cachaça tomados juntamente com seu compadre. Em algumas parte do conto, percebe-se a auto-análise da personagem, reconhecendo seus erros, porém, como os demais peregrinos usa o discurso de que todas as outras pessoas também fazem a mesma coisa. Benedicto Monteiro, de forma simples mas direta, também critica a postura da Igreja, a hipocrisia com que trata assuntos que possam manchar a imagem da pureza dessa instituição. O uso de figuras de linguagem, como a metonímia e a metáfora, é recorrente, por isso, apesar do autor utilizar uma linguagem coloquial, é necessário que tenhamos uma leitura cuidadosa e atenta da obra para melhor captarmos sua essência. O conto é uma leitura encantadora e mística que faz com que tenhamos um encontro com nossa cultura e que nos conduz a uma aproximação ainda maior com a realidade paraense, desfrutando assim de momentos prazerosos e encantadores

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