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    A sul. o sombreiro - Romance

    Pepetela

    Leya
    2012
    364 páginas
    12h 8m
    ISBN-10: 8580444829
    Português
    3.8
    56 avaliações
    Leram89Lendo11Querem158Relendo0Abandonos7Resenhas3
    Favoritos1Desejados158Avaliaram56

    Um recorte da história de angola nas palavras de Pepetela. Manuel Cerveira Pereira, o conquistador de Benguela, é um filho de puta. Assim começa um grande romance de aventuras que nos conduz à Angola dos séculos XVI e XVII, enquanto Portugal vivia sob o domínio filipino. Entre lutas de poder, muitas conspirações, envolvendo governadores e ordens religiosas - com os franciscanos e os jesuítas na linha da frente - travamos conhecimento com homens muito ambiciosos, com um inglês um pouco doido, e com os terríveis jagas, os guerreiros incomparáveis que povoavam os piores pesadelos dos brancos, ao mesmo tempo que nos deixamos encantar por um fugitivo que se torna um aventureiro e explorador de terras por desbravar.

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    Johnny Gonçalves09/05/2012Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Romance e História

    Todos temos os nossos escritores preferidos. Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, mais conhecido como Pepetela, é um dos meus. Seu modo de escrever é primoroso, revela jogo de cintura com as palavras, possui fino humor e um forte viés político. Pepetela lutou no MPLA, Movimento Popular de Libertação de Angola, foi político e governante, licenciado em Sociologia, ganhou o valoroso Prêmio Camões em 1997. Atualmente, é professor universitário e dirige associações culturais em Angola. Apesar de suas duras experiências na guerrilha libertária, revelou-se pessoa afável e perspicaz em uma entrevista que deu recentemente à Globonews. Os livros de Pepetela costumam incluir um glossário de verbetes do português angolano, com os quais a gente acaba por se acostumar. Em seus romances, o escritor conta a história de seu país, por meio de personagens bem construídos e narrativa inteligente. Já li quase todos, dos mais enternecedores (A Parábola do Cágado Velho, A Montanha da Água Lilás) aos mais engraçados (com o sarcástico protagonista Jaime Bunda, o James Bond africano), passando pelos de conteúdo histórico e revolucionário (Mayombe, A Geração da Utopia, A Gloriosa Família, entre outros). "A Sul. O Sombreiro" fala da conquista de Benguela, localizada ao sul de Luanda, para além do rio Kwanza. Este pano de fundo histórico dá passagem a um roteiro razoavelmente complexo, com alternância de narradores e muitas referências a momentos do processo de colonização no ocidente africano. A coroa portuguesa, dividida com os Filipes espanhóis, envia cobiçosos governadores a Luanda para conquistar a região, traficar e enviar escravos ao Brasil, procurar ouro, prata e cobre. A dominação e a barbárie retiram do romance o tom de pilhéria e ironia que me agradam bastante em Pepetela, embora estes elementos estejam presentes aqui e acolá. O romance tem umas 350 páginas e, confesso, foi-me difícil vencer sua quinta parte inicial. Toda a pesquisa feita pelo autor, com a finalidade de mostrar o contexto histórico e social de sua dupla aventura, além de plantar as personagens, pode assustar e afastar o leitor desavisado, devido aos muitos nomes que se sucedem numa intrincada teia de fatos e relacionamentos. Superada essa aspereza inicial, o roteiro passa a fluir deliciosamente. Há o poder secular, dominado localmente pelos jesuítas (principalmente), franciscanos e dominicanos. Há o poder da nobreza, que se expressa nos governadores e capitães enviados da Europa. Estes dois poderes chegam à África para subjugar os chefes das tribos de Angola e do Congo, os “sobas” e seus inúmeros povos. O cenário é de conflito, em que importam mais a autoridade e a acumulação de riquezas. É neste cenário de conflito que se desenvolve a dupla aventura anteriormente mencionada. Entre os narradores e protagonistas, dois se destacam e constituem o fio da história. O primeiro é Manuel Cerveira Pereira, o despótico governador em Luanda. De rosto fino, barbicha e roupa preta, recusa-se à humildade dos pés descalços e enverga pesadas botas, as quais lhe impõem dolorosas bolhas e grande sofrimento sob o intenso calor africano. Mesmo assim, o conquistador procura manter a postura. Homem do tipo que manda matar, apoiado pelos jesuítas, ao mesmo tempo em que faz alianças, destrói seus inimigos. Ele partirá, por mais de uma vez, rumo a Benguela, atrás das minas de cobre, enquanto lucra com a remessa de escravos (chamados de “peças”) ao Brasil. Em sua lenta troca de correspondência com a realeza na Europa, sobrevaloriza as possibilidades de encontrar metais preciosos, instiga a ganância do soberano, com o propósito de receber armas, soldados e catequistas. O outro ator importante na história é Carlos Rocha, negro de sangue branco, suposto descendente do pioneiro Diogo Cão. Seu pai já foi um homem bem sucedido na sociedade luandense, mas enveredou pelos caminhos da bebida e é capaz de vender o filho como escravo em troca de maluvo, o corrosivo vinho de palma abundantemente consumido na região. Carlos Rocha foge do pai e embrenha-se na mata. Foge também do governador, pois uma vidente recomendou que não confiasse em homens trajados de preto. Seu trunfo é possuir um enorme poder de persuasão. As aventuras de Manuel Cerveira Pereira e Carlos Rocha se entrelaçam ao longo do romance e levam a um encontro final, constituindo um fino relato daquele momento histórico. Enquanto isso, o leitor conhece particularidades muito interessantes da cultura dos nativos africanos. Sob esse aspecto, impõem-se os jagas, grupo de guerreiros antropófagos, com sua peculiar formação hierárquica e convenientes alianças. Atacam e saqueiam outros vilarejos (kimbos) para obter bebida (maluvo) e comida (carne humana). Um ponto interessante do livro é a descrição dos costumes desses jagas no tocante às suas estruturas familiares. Os bebês são esganados e mortos logo ao nascer. O contingente da tribo aumenta com a incorporação das crianças capturadas nos saques, já crescidas e depois educadas segundo as novas regras e disciplinas. O romance, no todo, é bem masculino. Personagens principais são homens, dominadores, seus aliados religiosos e dominados. Contudo, o fugitivo Carlos Rocha conhece uma mulher jaga e por ela se apaixona, o que dá forma a um dos trechos mais enternecedores da história. Kandalu engravida e, para ela, que havia sido menina raptada e ensinada a ser guerreira por seus “tios” jagas, a futura criança é um estorvo que deve ser eliminado, conforme rezam os mandamentos de seu grupo. A maneira pela qual o companheiro vence dificultosamente sua resistência à maternidade é muito bonita, chegou por vezes a me deixar embargado. O sombreiro refere-se à geografia da entrada da baía de Benguela, na forma de um chapéu. “A Sul...” é um texto escrito com esmero, para não muitos leitores, rico em alusões à história do período colonial luso-português, narrado com a pena precisa e rica em conteúdo de Pepetela. Dentre os seus escritos, não diria que este é o mais envolvente, mas absorvi cada detalhe e aprendi bastante. Recomendo tranquilamente a leitura.

    2 curtidas

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    Avaliações

    3.8 / 56
    • 5 estrelas18%
    • 4 estrelas55%
    • 3 estrelas25%
    • 2 estrelas2%
    • 1 estrelas0%
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    Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos

    Escritor e docente angolano que usa sua obra como reflexão da história contemporânea e dos problemas que a sociedade angolana enfrenta. Lutou juntamente com Movimento Popular de Libertação de Angola, período que retratou em seu romance "Mayombe".

    42 Livros
    91 Seguidores
    Benguela, Angola

    Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos