Em o Mistério do Rio das Rosas Brancas, somos apresentados ao Professor e ambientalista Luiz Caetano e ao estudante Ítalo que está apaixonado por seu professor.
Quando Ítalo resolve confessar seu amor, é surpreendido pela recusa do professor. Após uma tragédia em seu passado, Luiz Caetano não consegue viver o amor sem ser assombrado por seus fantasmas pessoais.
Logo o professor fica sabendo da construção da hidroelétrica em São Sebastião das Rosas, sua cidade natal, e viaja para lá, com Ítalo ao seu encalço. Como ambientalista, ele não pode aceitar que natureza seja destruída em favor do “progresso”, e como pessoa, que lhe seja tirado algo de tanta importância em seu passado.
Ao se aproximar do rio, o professor cai na água e a jornada de redescoberta citada na sinopse, acontece. Luiz Caetano conhece Luiz, nascido na cidade e amante da natureza, e a paixão entre eles floresce.
A partir daí Kizzy Ysatis não só nos apresenta a uma história de romance homossexual como de esperança, fé, preconceito e, sobretudo, de amor.
Confesso que tive receio de ler esse livro. Talvez por causa da quantidade de histórias do tema que li, que não foram muitos, mas que me decepcionaram. Neles, encontrei apenas um romance onde os amantes enfrentavam uma violência sem igual. É claro que nunca esperei ler algo que pregasse que os casais homossexuais vivem felizes e não sofrem nenhum preconceito, como no final dos contos de fada, porque sei que a realidade não é essa. Mas também não esperei o que Kizzy Ysatis me apresentou durante a trama. Preconceito? Sim, e quem é que não os tem?
E esse é o ponto onde o autor acerta. Ele nos faz confrontar o preconceito dos outros e os nossos de maneira natural e simples. Não nos força, em momento algum, a acreditar no romance homossexual, mas sim no amor.
O livro desperta curiosidade à primeira vista. Pela capa. Celtic Botan não poderia ter feito uma capa mais bonita e que combinasse mais com o livro. O significado dela, se você já não souber, pode ser desmistificado no prólogo. As poucas páginas nos mostram São Sebastião, hoje considerado o Santo Padroeiro dos Homossexuais, em seu romance com o Imperador Diocleciano em Roma, há muito tempo atrás. Numa era onde pessoas do mesmo sexo podiam se amar sem preconceito e onde os perseguidos eram os cristãos.
É um livro curto, com apenas 147 páginas, mas que não deixa nada a dever para os livros que atualmente são gigantescos. É curto, simples e direto, mas recheado de poesia e de uma narrativa fluida. Mas como se diz: menos é mais. E Kizzy consegue exatamente isso, colocar todo o significado de um sentimento magnânimo que é o amor com tão poucas palavras.
E apesar de ser um mainstream, Kizzy consegue misturar fantasia no livro. Esta tendo início quando o Professor Luiz Caetano cai no rio e é resgatado por Luiz. O final surpreende, nos lembrando, como o autor mesmo diz, o filme “Efeito Borboleta”.
Mas confesso que fiquei um pouco chocada com a cena de sexo, a única no livro. Preconceito? Sim de novo... e que com a narrativa poética de Kizzy ela foi um pouco embora.
Mas não foi isso o que mais me chocou. Sim a cidade, São Sebastião das Rosas, que eu acreditei fielmente existir. Bem ela não existe. Mas é descrita de uma forma tão crível que fui até procurar na internet em qual estado ficava.
Os personagens, sem dúvida, são outro ponto positivo da história. Principalmente os secundários. Não somos decepcionados com eles, pois todos são bem construídos. Principalmente o trio de amigos apresentado depois do rio, Luiz, Erica e Diogo. Os demais habitantes da cidade, tão fervorosos em sua religião, vão contra o amor dos homossexuais, mas há outros, como Erica que apoia o amigo, e o incentiva a ficar com seu amor, indiferente do que os outros creem. Mas o que mais gostei foi da personagem principal, Luiz Caetano, que como nós, tem dúvidas e guarda preconceitos a respeito de si mesmo, e que com Luiz, vai aprendendo que o que realmente vale a pena é amar, indiferente de quem e como. É dessa forma, natural e simples, que Luiz Caetano se despe de seus preconceitos e a nós também.
O que detestei? Sim, existe algo que detestei. A forma como a editora do autor, a Novo Século tratou o livro. Podemos encontrar erros de revisão e sim, eu sei, é primeira edição, mas a editora poderia ter revisado melhor. A impressão tem falhas e em algumas partes as letras pareciam “tremidas”, escuras ou claras demais. Conhecendo os demais projetos da Novo Século, a impressão que tenho é de que o livro foi tratado com um pouco de descaso.
Enfim... É uma excelente leitura, não é atoa que ganhou o prêmio de Honra do Mérito pela União Brasileira de Escritores (UBE). Recomendo a todos, seja qual for sua opção sexual, leia. Principalmente os heteros. É uma forma bonita, clara e poética de nos livrar dos nossos preconceitos, “aos pouquinhos e sem dor”. Kizzy cumpre, sem sobra de dúvidas, com o dever de um escritor, retratando a sua sociedade e nos entregando um livro recheado fé e amor.