Paul Auster é um escritor estadunidense veterano. Esquecido com frequência pelos críticos em listas de melhores livros dos Estados Unidos devido ao seu estilo europeu de fazer ficção - e talvez justamente por isso "ignorado" -, Auster demonstra em seu 16º romance que somente a história poderá julgar devidamente seu trabalho. Afinal, como afirmou o escritor espanhol Javier Marías em uma entrevista ao programa da BBC World Book Club, a "posteridade pertence ao passado".
Lançado em 2010, "Sunset Park" é uma história sobre colapsos, abandonos, perdão e redenção. Conduzido com maestria pelo autor através de uma voz narrativa em terceira pessoa, o livro traz, de maneira convincente, uma galeria de personagens interessantes com personalidades distintas bem construídas. O fio condutor do romance é Miles Heller, jovem prodígio de 28 anos que guarda consigo um segredo familiar estarrecedor que deixou cicatrizes abertas em sua vida. O cenário? A recessão econômica global de 2008 que devastou o país exemplar do capitalismo e que serve de alegoria para as agruras que as personagens vivem ao longo do livro.
Enquanto narra a saga de suas personagens, Auster presenteia os leitores com o seu tradicional bom gosto e faz citações diversas à (boa) cultura dos Estados Unidos, em especial ao livro "O grande Gatsby" de F. Scott Fitzgerald, o filme "Os melhores anos de nossas vidas" de William Wyler, e a uma série de jogadores de beisebol - que, apesar de ser recorrente e menos empolgante, fez eu acreditar, em algum momento durante a leitura, ser este o livro estadunidense que melhor aborda esse esporte.
Através de uma prosa sedutora, contada em múltiplas perspectivas, nós, leitores, vamos nos acostumando com o pequeno universo de Auster. Começamos a compreender como a terrível cicatriz que marca a história do protagonista afeta a sua nada saudável relação com o pai, Morris Heller, e a mãe, Mary-Lee Swann, e como isso reverbera em sua relação com Pilar Sanchez, sua namorada de 17 anos - e, portanto, menor de idade. Passamos a refletir por que Miles Heller, que é forçado a voltar a Nova York devido a um incidente inesperado, aceita o convite de seu antigo amigo, Bing Nathan, para morar com ele e suas amigas Alice Bergstrom e Ellen Brice (dupla feminina que está tão perdida quanto Miles por razões distintas) em Sunset Park, bairro de imigrantes pobres no Brooklyn, local cercado de casas abandonadas em consequência da devastação da crise econômica que abalou o sistema de hipotecas dos Estados Unidos.
Deliciosamente executado, "Sunset Park" possui pequenos deslizes quando Auster não se segura e envereda para um lado erótico descartável em que, mais uma vez, o pênis é o grande homenageado e idolatrado pelas mulheres (e pelos homens também, no caso desta história). É uma armadilha que quase todos os escritores homens caem, infelizmente. Mas, para os leitores o que importa é que esse desvio de conduta não tira o brilhantismo da narrativa.
"Sunset Park" é um livro marcante? Para mim não foi, apesar de eu ter gostado muito dele. Claro, isso depende de cada leitor, afinal, gosto é um conceito cercado de subjetividade. Mas é preciso lembrar que, às vezes, o que nós precisamos não são enredos arrebatadores, complexos ou extremamente filosóficos. Às vezes, o que precisamos são de boas histórias com personagens que apresentem uma caracterização bem elaborada, mostrando a milagrosa estranheza da vida em que o acaso, conceito caro a Paul Auster, é norteador. E isso é o que "Sunset Park" tem a oferecer de melhor: uma boa história.