Ainda não tinha lido nada do Scliar, apesar das muitas recomendações. Quase por acaso, o livro veio parar em minhas mãos e não perdi tempo: o li em uma tarde. Só assim pude perceber a falta que esse grande escritor, e, mais do que isso, um perfeito contador de histórias faz no mundo. Com linguagem clara, ele nos apresenta o seu tempo com a costumeira confusão de um jovem que não entende o que quer dizer os tantos conflitos e ideologias presentes na ditadura de Getúlio Vargas.
O livro não corresponde às primeiras expectativas: é muito mais do que o diário de um homem relembrando paixões de infância. É o retrato - atual até os dias de hoje - da fase a qual todos passamos um dia, com seus receios tolos e amores pra vida inteira. Aquele que, mesmo depois de casado e com filhos, Juca não apaga da memória por lembrá-lo de uma fase de inocência onde seus olhos não podiam ver muitas das barbaridades que se tornam claras com o tempo e tiram a crença de alguns em um mundo melhor. Mas ele nunca deixa de acreditar, por causa dela.
Recomendo, portanto, pela clareza e beleza que poucos conseguem dar a uma história que a princípio se mostra singela, mas é também histórica e descritiva de uma época onde havia terror, pressões, medo. Mas também muito amor.