Todo romantismo é embriaguez de um começo. Rompante que não espera provocação, projeto que refuta o peso do obstáculo futuro; um pouco assim como nos sentimos quando a insegurança esporeia o amor próprio, fazendo-nos aumentar o tom, redobrar a ênfase de nossa palavra e nosso gesto. O que pode causar surpresa ao leitor é que, para além do entusiasmo do instinto e do enamorar-se da própria subjetividade (centrífugo o primeiro movimento, centrípeto o segundo — como em toda adolescência), o romantismo alemão se definiu por uma exigência rigorosa, quase ascética em sua disciplina: atingir a plenitude do possível, através da reflexão. Poesia e filosofia deveriam realizar-se juntas, ainda que o mútuo caminho de sua redenção já nos soe, agora, terrivelmente abstrato. Ardor pela lógica, pela ideia, pelo discurso, que revelava também uma crença um tanto mágica e supersticiosa no intelectualismo mais desabrido; falar por falar, alegria do espírito na geração de talento que vivia a virada para o século XIX. Friedrich Schlegel é um exemplo acabado desta geração. Refletiu, exaltou-se, escreveu, sempre acompanhando a perfeita volubilidade de seu gênio. Tinha pressa, como se uma voz lhe soprasse ao ouvido: é imperativo instaurar a eternidade nos próximos cinco minutos.


