Conversas com Kafka é um documento literário e humano de grande importância para a reinterpretação do revolucionário autor. O tímido escritor Gustav Janouch, então com 17 anos, conheceu Franz Kafka em 1920, quando este estava com 37 anos. Durante quatro anos eles formaram uma parceira no melhor estilo 'mestre e discípulo'. Os detalhes quase cotidianos dessa relação foram registrados na obra Conversas com Kafka. As conversas entre Gustav Janouch e Franz Kafka giravam em torno dos assuntos mais diversos, desde os temas literários, filosóficos e religiosos, até as questões estritamente pessoais. O período em que se desenvolveu o livro é o da atormentada relação de Kafka com Milena Jesenská Polak, a quem ele só se referia indiretamente.
Conversas com Kafka -
Gustav Janouch
Edições (1)
Ver maisO Evangelho de Franz Kafka
Gustav Janouch teve a oportunidade de conviver com Kafka, do qual foi uma espécie de pupilo. Registrou em livro os momentos que passou ao lado do hoje célebre escritor, mas uma pergunta me pareceu inevitável: de qual "fonte" Janouch tirou os diálogos completos que teve com Kafka? Fala-se que ele fez "notas", mas em outras vezes se alude a "lembranças". Ninguém é capaz de se lembrar de conversas completas que teve com alguém. Pode-se até alegar que a "essência" da foi aquela, mas eu não animaria a colocar na boca do Kafka palavras que ele talvez não tenha dito. Então não sei até que ponto acreditar nas frases dele. Outro ponto que me parece complicado é que, considerando períodos em que Kafka esteve afastado por motivos de doença, o tempo de convivência entre ele e Janouch teria sido de mais ou menos um ano. Ora, se foi em um mísero ano que os dois vivenciaram tudo o que foi relatado nesse livro, então basicamente Janouch viveu para Kafka e não o largou um só dia. E, realmente, a impressão que fica é que Janouch era mais importante para Kafka do que Milena Jesenská, a qual, curiosamente, não é mencionada por Kafka em momento algum. A devoção de Janouch por Kafka tinha realmente algo de religioso, ele se coloca na posição de um discípulo e alça Kafka à posição de um guru que emite juízos sábios e transcendentais. Parece-me que Janouch estava escrevendo "O Evangelho de Nosso Senhor, o Doutor Franz Kafka", pois é de atributos divinos que ele dota o seu Kafka, de cuja boca só sai sabedoria eterna. Embora a leitura do livro em si não seja difícil e nem enfadonha, o Kafka que emerge dessa leitura, se é uma versão real, parece-me um bocado xarope em sua total erudição. É possível até que essa afeição de Janouch denotasse algo mais, como se pode observar no modo como ele ficou perturbado ao Kafka simplesmente fazer um afago em seu rosto. A mão do Kafka, a mão do Kafka tocou o meu rosto! Ah, uma bênção dessas a um jovem mortal! Se dou ainda crédito ao relato apesar de todas essas objeções, é só porque aparentemente o Max Brod gostou e viu muito do Kafka naquilo que leu. Mas eu ainda prefiro quando o Kafka se expressa de maneira simbólica e alegórica, em vez de emitir julgamentos definitivos como os que fez para Janouch (ou os que Janouch colocou na boca dele).
Estatísticas
Avaliações
3.9 / 18- 5 estrelas33%
- 4 estrelas33%
- 3 estrelas28%
- 2 estrelas6%
- 1 estrelas0%

