Quando li pela primeira vez o livro de Clarah Averbuck, me encantei imediatamente. A leitura me cativou de um modo que eu nem sabia explicar. Fiquei apaixonada e virei fã. Eu tinha 16 anos, vá lá. Acompanhava diariamente o seu blog e achava esta moça o máximo. Na verdade, foi mais ou menos nessa faixa de idade que peguei gosto pela leitura. E a Clarah era de fácil digestão, tinha um certo ritmo, tinha a fórmula de colocá-lo dentro da narrativa pois nunca saía da primeira pessoa, era moderno e liberal. Acho que foi exatamente aí que me impressionei com escrita dela: a liberdade sexual. Para mim, uma adolescente vinda do interior, e talvez para a minha avó, aquele tipo de escrita causava impacto.
Seis ou sete anos mais tarde, reli o Máquina de Pinball. Depois de tudo quanto havia lido neste período e tudo quanto havia vivido, pude chegar a seguinte constatação: Clarah Averbuck tenta recriar um texto beat, com descrições medíocres de experiências vividas por uma garota mimada com pretensões artísticas. Uma burguesinha metida a pobre, que diz passar fome, mas contraditoriamente vai para festivais de música em Londres. Onde está a coerência nisso? Clarah força ao tentar ser "a versão feminina de Bukowski". Mas não tem a mesma sensibilidade. Não sabe de verdade o que é a sarjeta, pois trata-se de uma patricinha. Chega a gerar até mesmo um certo tédio e cansaço nessa tentativa de uma literatura que parece querer nos levar a um choque, mas que nada surpreende a faixa de leitores brasileiros a qual o livro está voltado.
"Querido diário, hoje eu saí para uma festa e bebi pra caralho e dormi com um cara" aparentemente muito interessante, não fosse clichè, pois nos tempos atuais, não é raro encontrar esse tipo de relato, inclusive de pessoas que conhecemos ou até de nós mesmos.
Esse é o estilo da escritora -digo, blogueira, que insiste em dizer que escritor não é blogueiro e blogueiro não é escritor, mesmo tendo, depois de adquirir um domínio, feito dele uma Revista Caras de si mesma e, convenhamos, publicação por publicação, a Bruna Surfistinha também tem livros no mercado- mas se esquece que o que impressionava há trinta anos atrás, hoje não causa sequer incômodo.
Clarah chegou a criticar a peça baseada no próprio livro, pois não concordou com a visão que o Abujamra teve da obra dela, que é, mais ou menos a que tenho agora: a protagonista era uma roqueira adolescente que viajava para a Europa com as taxas de embarque pagas pelo pai.