Nesse breve fluxo de consciência, Schnitzler expõe vaidade, egoísmo, comodismo afetivo e fraqueza moral. O personagem mede relações pelo prazer e pela conveniência, lamenta o que perdeu não por amor, mas por conforto. E justamente aí reside o valor da literatura: mostrar o humano como ele é, não como gostaríamos que fosse.
Foi particularmente interessante ter lido “O Tenente Gustl” após “Sem Olhos em Gaza”. Em Schnitzler, temos uma janela direta para a mentalidade europeia anterior à Primeira Guerra: o culto da honra, o militarismo como ideal de vida, a rigidez hierárquica e uma visão das relações entre homens e mulheres em que elas surgem como figuras inferiores, muitas vezes reduzidas a objetos de prazer, conveniência ou status masculino. Gustl é menos um indivíduo isolado do que o produto de uma época inteira.
Já Huxley escreve do outro lado da catástrofe. Em “Sem Olhos em Gaza”, vemos o esgotamento moral e espiritual do mundo que aquele pensamento ajudou a construir: uma civilização desiludida, fragmentada, sem rumo seguro. Se em Schnitzler a honra exterior governa o homem, em Huxley o indivíduo volta-se para dentro de si em busca de sentido. A consciência passa a ocupar o lugar da farda, da pose e do código social.
É justamente por isso que a literatura importa tanto: ela nos permite acompanhar não apenas fatos históricos, mas transformações da alma humana. Ler autores de épocas distintas é perceber causas e consequências, ilusões e ruínas. Por isso é lamentável quando tentam “corrigir” obras do passado em nome da sensibilidade presente, pois perde-se a oportunidade de compreender como certas ideias nascem, seduzem e, por vezes, devastam o mundo. Ao higienizar textos antigos, apaga-se não apenas a linguagem de outra época, mas também seus vícios, contradições e cegueiras — isto é, aquilo que mais nos ensina. Livros são documentos vivos da condição humana. Se destruirmos essa memória, corremos o risco de repetir os mesmos erros, agora sem sequer reconhecê-los.