Essa resenha terá um tico de spoilers porque é impossível falar do Teeth sem falar... bem, dele.E ele já é um spoiler do próprio livro, acredite se quiser.
O clima do livro inteiro é acinzentado, sombrio, então já se nota que não é uma leitura felizinha, né? A começar pela própria capa (que não poderia ser mais conectada ao enredo, sério) e pela motivação da trama: Rudy tem 16 (17? não me lembro) anos e teve que largar tudo porque sua família descobriu que um peixe, nascido e criado numa ilha deserta bem longe na sua casa, é o único remédio que pode retardar a doença do seu irmão mais novo, Dylan, de apenas cinco anos. Dylan tem uma doença pulmonar (fibrose cística) que faz com que os pulmões se infeccionem e se contraiam até que seja impossível respirar, fechando as vias aéreas, e é incurável pela medicina. Mas a família fica sabendo to tal peixe (sim, uma espécie de peixe) que consegue curar, ou pelo menos retardar, todo o processo de qualquer doença. Só que essa espécie só é encontrada em uma ilha muito distante, muito fria e quase deserta - a comunidade que vive por lá é composta basicamente de gente doente que se assentou lá e tem medo de sair e ficar sem o peixe e morrer. O que os pais de Rudy decidem fazer sem pensar duas vezes? Largar literalmente tudo e se mudar pra ilha também.
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A ambientação desse romance é, de início, muito arrastada, mas a gente percebe que o trabalho foi bem feito depois: eu conseguia me imaginar na ilha, enxergá-la, sentir o frio congelante, a água da marina, as docas, o cheiro de peixe e do desespero que paira no ar por causa dos moradores. Eu sentia todas as emoções do Rudy como se fossem as minhas e é uma negócio de louco porque, apesar do livro ser contado em primeiro pessoa por ele mesmo, dá pra saber exatamente como os outros personagens estão se sentindo também. E é uma angústia enorme em 99% do tempo.
Esse livro é de partir corações em níveis que eu não estava preparada. Rudy descobre que há outra adolescente na ilha, Diana, e que sua família guarda um segredo terrível. Mas a maior descoberta dele é o próprio Teeth, e atenção para spoilers: um "sereio", metade menino, metade peixe. Ele o apelida de "fishboy" (garoto-peixe) e é o único (além da "curandeira" do local) que sabe de sua existência. Rudy é o único que escuta seus gritos à noite, seu choro, e vê sua calda na água congelante.
A história do Teeth é daquelas de te dilacerar por dentro, e a gente só consegue descobri-la do meio pro final mesmo, então o mistério se mantém vivo durante toda a história, praticamente. [...]
Os personagens são muito críveis... [...]
Aliás, aviso: definitivamente não é uma trama leve. Há diversas passagens bastante pesadas que falam de estupro e abuso da maneira mais cruel possível. [...]
Esse livro traz diversos questionamentos polêmicos. Vou citar alguns, que peguei emprestado de uma resenha do goodreads, mas que foram me passando pela cabeça o tempo todo durante a leitura:
• Responsabilidades. Como ser livre? Será que nós podemos, mesmo?
• Diferenças de percepção de mundo e a busca pelo "nosso lugar". Pra quê, afinal de contas? Só para morrer "em paz"?
• Família e doenças: estamos prontos pra salvar aqueles que amamos a todo custo mesmo? O que você faria pela sua família? Até que ponto iria?
• Pensamento ético: o que faz os seres humanos serem "mais merecedores" de viver do que os outros seres do planeta? Será que merecemos mesmo?
Por fim, acho que posso resumir assim: esse livro é esquisito, não tem uma lógica concisa, sabe? Tem umas coisas fora da lógica "natural", mas é uma trama que te faz questionar até o que é natural. É uma história bizarra e bastante pesada, mas bem interessante de se envolver. Se você é sensível a temas como estupro, mutilação, violência física e morte, porém, não leia. Sério.
Eu adorei, mas também não gostei. Amei, mas depois odiei. Sentimentos, pra quê, né?
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