“Se nunca houve uma mulher como Gilda, como pregava o slogan publicitário do filme, jamais surgira, nem voltaria a aparecer, nos estádios de futebol, jogador tão carismático como Heleno de Freitas.”
O que é a loucura? Onde reside a linha que divide a intensidade da forma de viver da loucura? Amar, se apaixonar, odiar, se enfurecer, se alegrar, dar carinho e cuidado e ser agressivo. Heleno de Freitas talvez fosse um exemplo raro de uma vida que foi vivida sobre a linha divisória da sanidade e da loucura e faz disso uma marca na história.
Independente do que você pensa sobre futebol, é impossível negar a importância dele na cultura e na história do Brasil. Grandes histórias e personalidades do país vieram do esporte que nasceu na Inglaterra, mas encontrou aqui terreno fértil para crescer e mudar o tecido social.
Meu conhecimento sobre Heleno veio desde cedo. Como botafoguense (entregue à uma paixão sem reciprocidade desde cedo), filho e neto de botafoguenses, cresci ouvindo meu pai falar sobre Garrincha e Nilton Santos, mas me lembrando que meu avô gostava mesmo era de Heleno de Freitas. Mineiro de São João Nepomuceno, Heleno é considerado por muitos a primeira grande celebridade do futebol brasileiro.
Muito bonito, vindo de uma família tradicional mineira, extremamente culto e bem educado, bacharel em direito e frequentador assíduo dos principais eventos sociais da cidade do Rio nos anos 40, Heleno era quase uma entidade, uma aparição. Um craque nos campos, um cavalheiro e conquistador inveterado fora deles, em ambos uma mistura de calmaria e tempestade, respeito e violência.
Marcos Eduardo Neves, jornalista de grande talento, narra de forma incrível a saga dessa figura memorável do futebol, sempre contextualizando os cenários sociais e históricos da época, mostrando não só o homem, mas o meio que o cercava, sempre com fidelidade e embasamento histórico e respeito a um ídolo eterno que padeceu da loucura proveniente da sífilis, mas deixou marcas no esporte que hoje move a paixão de muitos, todos os dias. Paixão e loucura sobre uma linha tênue.