“A Lua na Sarjeta” foi escrito por David Goodis em 1953. Acompanha alguns dias da vida de William “Bill” Kerrigan, estivador da Filadélfia obcecado em descobrir o estuprador de sua irmã mais nova, que cometeu suicídio após a violação.
Se nos atermos a este pequeno resumo da obra, imagina-se que a obra é mais um romance policial banal. Seria ao mesmo tempo muito e pouco para descrever o livro. Parece paradoxal mas não é.
Goodis faz um belíssimo trabalho ao descrever a parte suja da Filadélfia, a parte que ninguém gosta de ver (quase como as favelas brasileiras). O romance é pesado, massacrante, realmente inspirando nojo e desgosto no leitor: muito mais do que um romance policial banal.
A parte investigativa em si é risível: as coisas parecem aparecer na frente do protagonista, coisas que deveriam ter acontecido há muito tempo mas, por alguma coincidência monstruosa, acontecem muito tempo depois. Kerrigan pouco investiga realmente.
Imagino que Goodis nunca se propôs a escrever uma verdadeira história investigativa. Ele passa a totalidade do livro batendo na mesma tecla: o estilo de vida americano é uma ilusão. Com os personagens que não saem da mediocridade, e que escolhem a mediocridade, o autor cria inúmeras metáforas no decorrer da narrativa para impedir a ascensão social pelo trabalho, sorte ou qualquer outro motivo, tão badalada até hoje. Os personagens nascem na lama, vivem na lama e morrem na lama: qualquer mistura entre ricos e pobres é efêmera e passageira. De certa forma, ele não está completamente errado, como mostra o fenômeno de constante rejeição dos novos-ricos por camadas já estabelecidas na riqueza.
Porém, ao insistir em demasia neste ponto, o autor acaba negligenciando os outros pontos de sua obra: os personagens são insossos, unidimensionais e pouco realistas; a história é muitas vezes pouco interessante.
No final das contas, o livro tem alguns pontos positivos. É um livro curto, de fácil e rápida leitura. Porém para por aí. Não é uma obra marcante. Muito pelo contrário.