O Livro Negro da Revolução Francesa -

    Pe. Renaud Escande, Pierre Chaunu, Jean Tulard, Emmanuel Leroy-Ladurie, Jean-Sévillia, Jean-Christian Petitfils

    Aletheia
    2010
    1124 páginas
    1d 13h 28m
    ISBN-13: 9789896222383
    Português

    A Revolução Francesa de 1789 é normalmente descrita como um acontecimento glorioso, libertador e fraternal, que significou o triunfo de uma Razão há longo tempo amadurecida e desejada na Europa e que destruiu o mundo do Ancien Régime. Mas o acontecimento que é apontado como o fundador de valores como a Liberdade, Igualdade e Fraternidade, representou, simultaneamente, um dos mais sangrentos períodos da história contemporânea, com marcas que perduram até aos dias de hoje. O Livro Negro da Revolução Francesa não pretende "branquear" fatos. É inegável que a extrema violência que este acontecimento gerou - e que, no entanto, se reclama como sendo um produto das Luzes - deixou marcas indeléveis em sucessivas gerações no mundo ocidental. Este livro pretende apresentar uma visão não só da Revolução Francesa, mas também dos processos revolucionários globalmente considerados, oferecida por trabalhos e reflexões críticas com um valor e autoridade que são, frequente e precipitadamente, recusados, mas que têm sido fundamentais para a desconstrução da mitologia revolucionária. Das perseguições religiosas aos tribunais do Terror, da guerra civil à destruição de obras de arte, o leitor poderá, com o presente livro, ganhar uma nova perspectiva sobre um dos acontecimentos mais marcantes da História.

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    Wallace Siqueira26/05/2025Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Por trás do mito

    Ler esse livro foi como entrar em um tribunal da história, onde a Revolução Francesa é colocada no banco dos réus. A obra, organizada por Renaud Escande e com contribuições de diversos especialistas, não é apenas mais um relato sobre 1789 – é um mergulho profundo nos aspectos mais sombrios e menos discutidos desse período, mostrando como o evento que muitos celebram como o berço da liberdade também foi marcado por violência extrema, perseguições e contradições. Logo de cara, o livro me surpreendeu pela abordagem. Em vez de focar nos ideais de "Liberdade, Igualdade e Fraternidade", ele expõe o Terror em seus detalhes mais cruéis: os tribunais revolucionários que condenavam pessoas com julgamentos sumários, a perseguição religiosa que destruiu igrejas e executou padres, e até a vandalização de obras de arte consideradas "contra-revolucionárias". A parte sobre a Vendéia, uma região onde a resistência ao governo revolucionário resultou em massacres brutais, foi especialmente impactante – e pouco discutida em outros livros que li sobre o tema. O que mais me prendeu foi a análise crítica dos paradoxos da Revolução. Como um movimento que se dizia iluminista e defensor da razão pôde gerar tanta irracionalidade? Por que a busca por igualdade levou a novas formas de opressão? Os autores não poupam críticas a figuras como Robespierre, mostrando como o discurso de virtude pública muitas vezes escondia autoritarismo. A linguagem, porém, pode ser um obstáculo. Não é um livro para iniciantes – pressupõe que o leitor já conheça bem o contexto da Revolução Francesa, e alguns capítulos são densos, com análises historiográficas detalhadas. Além disso, a estrutura (são dezenas de ensaios de diferentes especialistas) faz com que o ritmo seja irregular. Há partes que fluem como um thriller histórico, enquanto outras exigem paciência para acompanhar debates acadêmicos. Ainda assim, vale cada página. Fiquei impressionado com a pesquisa. Detalhes como a burocracia da morte durante o Terror – com registros meticulosos de execuções – ou a destruição sistemática de símbolos do Antigo Regime mostram uma face da Revolução que raramente aparece nos livros didáticos. Terminei a leitura com uma visão mais complexa desse período. Não se trata de "demonizar" a Revolução, mas de lembrar que até os processos históricos mais glorificados têm suas sombras. Recomendo para quem já conhece o básico e quer se desafiar com uma perspectiva diferente – só aviso: não espere heroísmo ou romantismo revolucionário aqui. Ainda bem.

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